Vila do Conde Peneda-Gerês Extreme – do principo ao fim.

Dizemos-nos diferentes pela racionalidade, mas é na irracionalidade dos sentimentos onde realmente nos diferenciamos.

VCPGE 2016

Somos animais sentimentos, talvez mais do que a capacidade de raciocínio, seja a capacidade de sentir que nos diferencia dos demais animais. Pedalamos para reviver as emoções da infância, pedalamos para rir, para sofrer, para esquecer, para chorar, para nos deslumbrarmos, para nos superarmos, são os sentimentos que nos impelem, são os sentimentos que nos motivam, são os sentimentos que nos fazem viver e então podemos concluir que sentimos para viver e vivemos para sentir.

É isso que o homem vê no desafio do ciclismo, sentir! E foi por essa razão que pelo segundo ano voltei a alinhar no VCPGE (Vila do Conde Peneda-Gerês Extreme).

Procuro escrever antes que os sentimentos me toldem a razão e transformem a experiência de sentimentos, apenas numa boa memoria, cheia de boas sensações, é altura de escrever. Enquanto ainda sinto tudo na pele e posso tentar descrever a experiência. Porque a percepção de esforço perde-se no tempo. Uma hora queremos desistir, no dia seguinte pensamos que foi difícil mas não impossível e uma semana depois é só boas memorias.

Este ano não estava nos meus plano participar e não fosse os tais sentimentos que nos toldam a razão e nos desafiam, ou nos fazem sentir desafiados, não estava a escrever agora isto. Então a estória conta-se assim…

O inicio, antes da prova…

O VCPGE2016 começa em 2015, quando ao fim de sessenta quilómetros da primeira etapa, desisti. Vivo mal com essa palavra, não censuro ninguém, o meu trabalho é ajudar pessoas a superarem-se e é complicado quando não somos exemplo disso.

O ano prometia não ser muito diferente do ano anterior e sem tempo para me preparar, alguém próximo insistia em chamar-me à razão, “não estaria à altura e para desistir novamente, mais valia ficar em casa”. Com o tempo a passar e as inscrições a encerrar, quem me chamara à razão inscrevera-se e eu… eu fiquei de fora!

Lembram-se de como começo este texto? Pois!

Os sentimentos não foram os melhores ao ver aquela inscrição cair lá. Foi uma sensação de desvalorização, de falta de confiança, senti-me posto em causa. Mas já era demasiado tarde, muito em cima do tempo, as inscrições esgotadas e a probabilidade de conseguir vaga como sobresselente era escassa e eu nem parceiro tinha escolhido sequer. Conformei-me, este ano estaria de fora.

Mas como a vida é como uma roda (dá muitas voltas), apenas a 4 semanas do inicio do VCPGE, eis que um amigo fica sem dupla e eu ganho o meu bilhete para a prova, estava dentro novamente e desta vez, iria terminar, nem que fosse de gatas!!

Não sinto necessidade de provar nada a ninguém, mas não posso permitir que me ponham a duvidar de mim.

Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo. – José Saramago.

A prova…

Diferente do ano passado. Os contornos do VCPGE seriam outros para esta edição, a organização propunha agora uma prova diferente. Ao contrário do que se passara na primeira e na segunda edição, a prova deixava de contar com um prólogo e duas etapas longas, para passar a contar com 3 etapas longas. Na sua 3ª edição, propunha aos participantes colocarem-se À prova em mais de 266 quilómetros e cerca de 6.700 metros de subida acumulada.

Primeira ETAPA…

Com o tiro de partida dado em Vila do Conde rumamos a Fafe. Esta primeira etapa foi uma maratona perfeitamente “normal”, 76 quilómetros com 1,730 metros de subida acumulada feitos a um ritmo muito bom (para os meus parâmetros obviamente) e a chegada a Fafe fez-se ao longo de uma ciclovia que terminou no pavilhão onde fizemos a pernoita. O jantar e depois o pequeno almoço foi numa escola a uns 100 metros do pavilhão.

VCPGE 13ago2016 dia 1

Esta etapa começou logo mal para mim, o pó inicial pôs-me logo a asma em alerta laranja e com dificuldades a respirar, depois, erros de principiante, senti-me tão estúpido!!! Tenho por hábito congelar os bidons para ter sempre água fresca disponível (a água fresca ajuda a uma melhor hidratação durante o exercício), mas aqui congelei todo o saco da mochila, ou seja 2,5lts de água com sais diluídos. Acontece que a temperatura ambiente fintou-me o dia não esteve tão quente como esperado e ao chegar ao primeiro abastecimento ao km37 ainda não tinha bebido água suficiente para o tempo decorrido e como não tinha água, pus também em causa a alimentação. É que começar com géis e açucares de absorção lenta sem água, é contribuir para uma aceleração da desidratação. Logo como não bebi, mal comi e foi o chamado “pau de dois bicos”.

Mas como o que não tem remédio remediado está, não tive outra alternativa senão tentar compensar o prejuízo e pedalar para Fafe. Eu e o Gerardo acabamos por fazer grande parte da etapa na companhia de outra dupla masculina, amigos já bem conhecidos, estes com problemas técnicos nos GPS,s ficaram sempre perto de nós para não se perderem. Sendo os ritmos muito próximos foi excelente a companhia e a conversa.

Dormir em “camarata” já é difícil, depois de um dia destes pior ainda e quando os próprios participantes não respeitam os demais… a lamentar a falta de educação de MEIA DUZIA de participantes, que não respeitam a “hora de silencio”.

Segunda ETAPA…

Ligou Fafe a Terras de Bouro, a organização chamou-lhe a “etapa rainha”, aqui esperava-nos 92 quilómetros e 3,115 metros de subida acumulada. Esta etapa prometia separar o “trigo do joio” e fazer estragos. Logo no arranque, a organização informou que parte da etapa iria ser neutralizada e no abastecimento ao quilómetro 34 iriamos ser “desviados” para percurso alternativo. Justificação, devido ao elevado risco de incêndio e por questões de segurança, não nos era permitido atravessar o parque da Peneda Geres. A etapa passava a ter 105 quilómetros e 3,150 metros de subida acumulada, feitos maioritariamente em asfalto.

VCPGE 13ago2016 dia 2

Mal arranco percebo que tinha deixado as pernas no pavilhão, demasiado tarde para voltar atrás, ou desistia, ou miava até ao fim.

Diria que 95% do percurso terá sido feito por alcatrão, o que não deixa grande piada à etapa, foi apenas pedalar para chegar ao fim, onde cada um lutou com as suas dificuldades físicas, uma vez que as técnicas não eram para aqui chamadas.

Eu e o Duarte a refrescar corpo e alma.

Eu e o Duarte a refrescar corpo e alma.

Uma vez mais eu e o Gerardo encostamos a outra dupla, desta vez de amigas, as meninas que lideraram do principio ao fim a camisola rosa (símbolo de líderes em equipa feminina). Desistir passou-me algumas vezes pela cabeça, a motivação para rolar em alcatrão era pouco e o sofrimento era muito, mas entre o apoio do meu parceiro, eu a apoiar-me e a ser apoiado pela Ana Rita Vale e as ameaças da Liliana Lopes e muito “Miau fru fru”, lá se foi fazendo o caminho e chegamos a Terras de Bouro.

(Há uns dias o meu filhote confessava que quando se sente esgotado começa a perder a concentração e à medida que pedala começa a cantarolar todo o género de canções, eu fiz 80 quilómetros com o “miau fru fru” na cabeça e de vez em quando a miar bem alto)

Acabo sentado com o meu atleta e amigo Augusto Midão à minha frente, a tentar dar-me sopa na boca tal era o meu estado que com os tremores não segurava sequer na tigela, ou no copo.

Aqui a alimentação e a hidratação já foram certinhas, o problema foi mesmo a falta de pernas, a dificuldade da etapa e o cansaço acumulado do dia anterior, mas a verdade é que foi igual para todos. Feito!

Jantar muito perto do recinto onde iriamos dormir, uns cafés logo à porta que convidavam a sentar na explanado, muita conversa com muitos dos conhecidos presentes e à hora de dormir, a mesma porcaria do dia anterior…

Terceira ETAPA…

Aquele sentimento de “next stop, home!”

A manha estava fresca, tão fresca que cheguei a pensar vestir o corta vento, mas sabia que pela frente teríamos uma “parede” de 5 quilómetros que nos levaria até ao alto de Mixões, o ponto mais alto da etapa e logo ali ao quilómetro 9.

VCPGE 13ago2016 dia 3

Cansado, muito cansado, mas lembro-me de ter colocado a bicicleta na meta para partir e naquele momentos que antecediam ultima partida dei por mim a sorrir. Que sentimento delicioso ter chegado aquele momento.

Arranque dado e logo, logo no primeiro quilómetro percebi que não tinha pernas para o ritmo, cedo começamos a subir e as sensações a piorar, já não há forças para ninguém, não ia pedalar, ia arrastar-me para casa.

Prestes a chegar ao final da subida, não tive forças suficientes para a pedalada e cai redondo, nem os pés tirei dos pedais, que exaustão, que sentimento tenebroso e ainda faltava mais de 80 quilómetros para casa.

Fim da subida, descemos em velocidade por estradões florestais largos, até entrar num single track bem fechado e técnico, muito divertido. A partir dai foi entrar cada vez mais em ambiente urbano, cada vez mais aldeias, cada vez mais estradas, cada vez mais urbanismo e finalmente a meta, Vial do Conde.

A superação…

Não tenho muito mais a dizer, talvez apenas que: A vitória só está ao alcance de alguns, mas a satisfação está ao alcance de todos e eu trouxe de lá a minha. Acreditem que dei o melhor que tinha para dar e se tivesse que dar um pouco mais, talvez não tivesse para dar.

Fica aquela cumplicidade :)

Fica aquela cumplicidade 🙂

Mas como dizia a frase do spot publicitário “quem quer ir rápido vai sozinho quem quer ir longe vai em acompanhado” e não fosse isso, talvez nem o que dei teria dado.

A organização…

O ano passado enchi a organização de elogios. Parti já com o sentimento de que a fasquia estava muito alta e este ano com mais participantes e ainda por cima mais uma etapa seria muito difícil fazerem melhor. Mas como diz o ditado, difícil mas não impossível. Não sei honestamente que dizer mais! Sei que o blog tem muitas visualizações no Brasil, por isso coloco isto da seguinte forma, se um dia quiserem atravessar o Atlântico  para pedalar em Portugal e experimentar o bem receber Português, é a esta que tem de vir. Porque vale a travessia, mesmo que fosse a nado. E se para o ano não melhorarem, que saibam manter o que fizeram, porque é absolutamente excepcional.

Um verdadeiro exercito que trata das bicicletas enquanto descansas e usufruis do tempo ao final de cada etapa.

Um verdadeiro exercito que trata das bicicletas enquanto descansas e usufruis do tempo ao final de cada etapa.

Os percursos…

São discutíveis, a opinião vai depender da preparação física e técnica de cada um. Foi pena a segunda etapa ser alterada, mas foi a nossa segurança que estava em causa e por isso só resta compreender.

Os abastecimentos e assistência…

Na alimentação não te falta nada, quer em qualidade, quer em quantidade, tudo fresco, tudo do melhor, antes de pedires parece que tens estampado na cara o que precisas e estão logo a chegar-te à mão. Na assistência técnica em cada abastecimento pegam e lubrificam as bicicletas enquanto te abasteces, tratam as bicicletas como se fosse deles.

Cada abastecimento celebrado como uma vitória :P

Cada abastecimento celebrado como uma vitória 😛

As refeições são tudo que precisas, do jantar ao pequeno almoço, desafio alguém a encontrar um defeito.

VCPGE 2016 refeiçoes

Pontos negativos…

Só a apontar aquilo que entendo como uma falta de respeito, o facto de meia dúzia de participantes insistirem em brincadeiras fora de horas, desrespeitando todos os demais na hora de descanso. Há horas para tudo e haja educação e bom senso para nos saber-mos comportar.

VCPGE 2016 dormidas 2

As dormidas em pavilhão. Os colchões são colocados pela organização.

Para o ano…

Para o ano não faço tensões de participar, acho que esta prova já me deu o que podia tirar dela, por isso outras experiencias virão e deixarei o meu lugar para que outros possam viver esta aventura incrível.

A experiência…

Fazer dos conhecidos amigos e dos amigos, mais amigos.

VCPGE 2016 foto dia 3 Bruno e Leandra Gomes

Afinal de contas, estava lá para isto…não para ver as bonitas paisagens do Gerês, para sentir, para me sentir capaz. Sentir, viver e sentir que se viveu! Se valeu? Cada gemido, cada “miau fru fru”!.

VCPGE 2016 o melhor de ti

 

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