Na berma da estrada…

Fui para a berma da estrada, uma vez mais, ver a Volta passar.

É incrível como eu, homem feito, profissional de ciclismo, ainda me arrepio todo ao ver o pelotão passar. Do lado de dentro das barreiras sou um profissional, mas do lado de fora sou a criança que cresceu a gritar o nome dos ciclistas. É magia pura, é emocional, não sei explicar.

O movimento popular em redor do ciclismo é um caso de estudo. Imagine-se que há quem acampe na berma da estrada de um dia para o outro, a maioria só lá vai umas horas, ainda assim a caravana em toda a sua extensão demora uns dez minutos a passar. Desde o primeiro batedor, até ao mítico carro vassoura, serão uns 10 minutos ao todo nas etapas mais rolantes. Nas etapas com subida, como montanha como lhe chamamos, demora um pouco mais porque chegam a conta gotas.

De todas as horas passadas na berma da estrada, o pelotão no seu grosso passará pro nós a uns simpáticos 50 quilómetros por hora, isto para alguém estático na estrada é um par de viradas de cabeça e pouco mais. São segundos apenas. Mas não é pelos segundos, é pelos arrepios que ficam ao ver aquele monte de gente louca em cima de uma bicicleta, a fazer daquilo vida, não pelo que ganham na sua maioria, mas pela vida que sentem quando pedalam.

Passei ao lado disto infelizmente! Gostava de ter tido a possibilidade de viver uma volta a Portugal em cima de uma bicicleta, teria sido os meus jogos olímpicos, a minha realização.

É certo que como tenho discuto anos após anos, que a volta está morta e só não vê quem não quer. É preciso reformular para voltarmos a ter uma volta digna, para trazer dignidade ao que dão dignidade ao ciclismo, para fazer da NOSSA volta uma volta internacional e não a corridinha da terra, que o é!

Continua a discutir-se que a volta não pode mudar de data por causa dos imigrantes que voltam à terra em Agosto. Como se a volta ainda passasse pelas aldeias de um Portugal profundo, repovoado em agosto pelos filhos da terra que regressam, como como se este fluxo ainda fosse o dos anos 60. Como se a pudéssemos ignorar que a volta está totalmente fora do calendário do ciclismo internacional e que as redes sociais e a comunicação social não tivessem mudado o mundo e o mundo com elas.

A volta ao Algarve transmitida pela Eurosport tem em média uma audiência de 50 milhões. Uma audiência que cria o desejo das pessoas estarem presentes na berma da estrada. É a base do marketing: há que criar o desejo!

Hoje a nossa Volta é o reflexo do ciclismo português e o ciclismo português é o reflexo da volta.

Ainda assim, o povinho continua a correr para a berma da estrada para ter direito aos seus dez segundo de arrepio e vai continuando a magia, porque a esta vive dentro de cada um de nós.

Há ainda uma outra grande mais valia na volta, são os únicos 10 dias do ano em que conseguimos pôr o mais acéfalo dos automobilistas a bater palmas aos ciclistas que ocupam o asfalto, muito embora no resto dos dias nos venha a desejar todo o mal do mundo por lá estarmos.

Enquanto houver volta vou continuar a correr para a berma da estrada e arrastar comigo todos que puder, para viver o meu arrepio de criança e tentar partilhar esta emoção.

Mas se estou satisfeito com o rumo? Não, não estou!

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