Conforto é performance!

Muitas vezes me entram no gabinete para fazer bikefit com a expressão “eu não sou ciclista profissional”.

E lá fico eu a explicar durante dez minutos de que a avaliação biomecânica, vulgo bikefit, é um exame ao movimento com o objetivo de aumentar o conforto, reduzir a probabilidade de lesão e no final, a soma do sucesso das duas condições anteriores é a dita performance!

Ainda vivemos segundo um “meme” que um amigo há uns tempos partilhava comigo através de uma rede social e onde satirizava: “Comprou bicicleta por dez mil euros, mas o bikefit é caro!”

Apenas uma brincadeira para mostrar o quanto se desvaloriza o próprio corpo. Quando vamos parar ao ortopedista o custo é bem maior e não me refiro apenas ao valor da consulta, porque se houver necessidade e for um profissional de excelência, não se poupa no médico. Refiro-me a um custo emocional de quem tem de passar por processos de recuperação, interrupção da atividade desportiva, ou até abandono. Esta última extremamente rara no ciclismo. Dizem as estatísticas que as lesões no ciclismo provém sobretudo de quedas e não da dinâmica do movimento. Mas não podemos descurar este.

Se um praticante iniciante fizer uma volta semanal de aproximadamente 60 minutos a uma cadencia média de 85 rotações por minuto, no final terá realizado 5.100 ciclos completos de movimento. Numa pessoa perfeitamente saudável, mesmo que a pedalar muito mal (na postura), o corpo será capaz de lidar com todas as inflamações em poucos dias, o praticante sentirá pouco mais que um ligeiro incomodo e desvalorizara.

Mas à medida que aumentar a frequência das voltas, por exemplo se repetir a mesma hora de prática três vezes na semana, no final da mesma terá executado 15.300 ciclos. Mesmo numa pessoa perfeitamente saudável, o corpo começará a ter alguma dificuldade em lidar com a repetição das agressões.

Um praticante mais entusiasmado com a modalidade, que realizes sessões de 120 minutos, quatro vezes por semana, no final da mesma terá executado mais de 40 mil ciclos e no final do ano, mais de 2 milhões.

O corpo de um atleta profissional tem mais desgaste por utilização, é verdade. Mas o corpo de um atleta profissional está não só treinado, como ainda é fruto de uma filtragem realizada desde as camadas de formação, onde os que foram manifestando menos aptidão para a tarefa foram sendo eliminados, ficando a mais fina nata de características psicológicas, antropométricas e fisiológicas para a modalidade em questão. Todas as modalidades seguem este principio.

Ainda assim, há uns anos atrás Chris Froom trocou de selim na bicicleta para vencer um sterrato com uma fuga incrível que lhe viria a dar o lugar mais alto no pódio no Giro D’Itália. O selim em causa era de uma marca concorrente que à data patrocinava a equipa onde o atleta corria e de onde recebia vencimento. A justificação do mesmo, foi de que o outro era desconfortável e lhe tirava rendimento.

Conforto é performance, prova-me o contrário!
Giro d’Italia 2018 – 101th Edition – 20th stage Susa – Cervinia 214 km – 26/05/2018 – Christopher Froome (GBR – Team Sky) – Elia Viviani (ITA – QuickStep – Floors) – photo Dario Belingheri/BettiniPhoto©2018

Egan Bernal chegou a desistir de provas por lombalgias fortes. Foi preciso um biomecânico compreender que o facto de ter uma perna mais curta do que a outra influencia toda a estrutura de movimento. Embora a assimetria de membros seja extremamente comum no ser humano, com frequência manifesta-se como um problema às vezes difícil de identificar e de contornar.

Conforto é performance! Digo e repito até à exaustão.

 A perceção de performance pode variar de um praticante de domingo para um atleta de alto rendimento, mas ambos partilham a mesma herança antropológica, somos uma só espécie, uma só raça e por isso temos mais em comum do que pensamos. Não fazemos todos 450 watts de FPT (functional threshold power), mas as dores são as mesmas.

Quando um atleta profissional começa a ter dores, o rendimento cai. Quando um praticante de domingo começa a ter dores, começa a vontade de regressar a casa e é o fim do prazer, da sua própria performance.

Performance para uns é ganhar um tour, para outros é fazer a voltinha da barragem. Ambos precisam exatamente do mesmo para cumprir o seu objetivo: CONFORTO.

E por essa razão, a avaliação biomecânica é para todos os que pedalam!

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