Não queremos bicicletas!

A história da humanidade tem mostrado que são momentos de dificuldade que criam grandes oportunidades para alterar a cultura de uma sociedade. Se esta tiver líderes capazes de promover essa mudança. Ainda não é o caso.

A escalada do preço dos combustíveis para o consumidor final, poderia ser uma brilhante oportunidade para que os portugueses adotassem um estilo de vida mais sustentável, através do recurso a uma utilização mais inteligente de meios de transporte suaves, como é o caso da bicicleta. Mas…

Mas neste “mas…” cabem muito temas!

Parece que os portugueses de forma transversal na sociedade, mais do que não estar preparado para integrar a bicicleta na sua cultura e na sua cidade, não está é interessado.

Primeiro porque é difícil largar o vicio do automóvel, como é difícil largar qualquer vicio. Perguntem a um toxicodependente se quer largar o vicio. Perguntem a um alcoólico se quer largar o álcool. Perguntem a um fumador se quer largar o tabaco. Perguntem a um viciado em jogo se quer deixar as salas de jogo. Qualquer um destes viciados é capaz até de concordar consigo com os malefícios do vicio que o agarra e que a sua vida sem o mesmo seria sem dúvida mais agradável, mas não é à toa que se chama vicio a algo que não conseguimos largar, mesmo, muitas vezes sabendo o mal que virá a curto prazo e a segregação social que sofrem.

O automóvel é um mal necessário. Gostemos ou não, a determinada altura precisamos dele. Mas não com a frequência com que o utilizamos. Tornou-se um vicio.

Por outro lado, para todo o vicio há um elemento que beneficia com ele e neste caso há muitos, mas sobretudo o principal que no afeta a nós, é o nosso próprio governo, que não tem interesse numa transição massificada, ou percentualmente relevante, para meios de transporte suave.

A carga fiscal sobre o consumo de produtos petrolíferos é colossal e como tal representa uma apetecível fatia a coletar.

Não é contraditório que Portugal tendo uma indústria velocipédica extraordinária, sendo um dos principais países produtores a nível europeu e mundial, tenha políticas tão pobres ao nível da promoção da utilização da bicicleta? Vocês conhecem a lenga, lenga de que o ciclista não produz impostos, não poluiu e ainda tem um nível de saúde acima da média, pois!

Se houvesse uma intenção de mudar a cultura, há coisas consideravelmente simples para quem detem o poder:

Sabem o dito voucher onde vos devolvem 20€ dos vossos impostos como se vos estivessem a fazer um favor? O impacto disso na economia familiar é zero, ou próximo disso. Que tal converter isso num voucher para comprar bicicletas? Que tal os municípios em vez de comparticiparem os passes escolares, dessem a escolher entre o valor da comparticipação, ou um cheque para comprar uma bicicleta? E se arrancássemos com formações no seio escolar, principalmente primeiro e segundo ciclo para a promoção da bicicleta? Não só começaríamos a incutir a bicicleta na idade certa, como ainda iriamos alcançar os pais, os avós e os tios dessas crianças. Muitos daqueles que destilam ódio aos ciclistas seriam neutralizados quando o filho, neto, ou sobrinho se tornasse um utilizador da bicicleta na via publica.

 E se houvesse uma norma para os parques escolares serem todos dotados de parqueamentos decentes para bicicletas? E se os automóveis privados fossem proibidos de uma vez por todas de circular nos centros urbanos. Desafogando as cidades para os transportes públicos, serviços profissionais e de emergência?

Parecemos aqueles toxicodependentes que preferem roubar para pagar a dose, do que largar o vicio. Mesmo sabendo que não é o caminho.

A mobilidade não enche os cofres do estado, não enche os bolsos das farmacêuticas e é feia!

Sim é feia! A mobilidade é feita com as Bergs com 20 anos, as Btwins que já ninguém dá valor, as Porto biketour, Lisboa Biketour e outras biketour que ficaram nas arrecadações guardadas 10 anos. A mobilidade não tem pinta, como os Hipsters de barba aparada, camisa ao chadrês e bicicletas fixed a apelar à trend dos mensageiros Nova Iorquinos. Não tem charme, ou glamour!

Mas a mobilidade em bicicleta é o futuro! Disso não tenho dúvida.

Virá certamente um político dizer que foram as suas medidas que implementaram a mudança, as suas ciclovias tortas e disfuncionais que levaram as pessoas a utilizar a bicicleta e alguns tolos irão na cantiga!

A única medida que os políticos têm e que empurram o cidadão para a bicicletas são os extenuantes impostos sobre o sector automóvel e tudo que envolve este, ao ponto do cidadão perceber que a dependência deste meio de transporte lhe tira grande qualidade de vida e que a bicicleta devolve!

Portugal não quer bicicletas, porque não interessa!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s