Não, não vai correr tudo bem!

Confesso que a frase “vai correr tudo bem” me irrita solenemente.

Soa a grito de guerra do estilo “vamos ganhar!”, entoado por um conjunto de indivíduos prestes a entrar em campo para um jogo que desconhecem e como tal, não fazem a mais pequena ideia do que fazer.

Por isso párem de mentir às crianças por favor. – (sarcasmo)

Sublinhe-se o facto propositado de ter dito conjunto de indivíduos e não equipa. É que a definição de equipa já pressupõe organização, preparação e conhecimento de causa.

 “Se não te preparaste, estás preparado para perder”

A frase não é minha, mas de John Wooden. O homem foi um colosso do treino desportivo. Foi, porque infelizmente já não está entre nós. Mas a humanidade teve o privilégio de durante 99 anos aprender algo com ele e mesmo depois de o perdermos, ficou a sua obra e as pessoas que ele tocou. Não visa só o desporto, mas todo o comportamento humano, já que o desporto concentra em si tudo que somos enquanto espécie individual e social. Deixou-nos acima de tudo a imagem clara do que é e como deve ser um líder.

Um jogador de futebol sabe que falhará mais golos do que os que irá marcar, um ciclista sabe que perderá mais corridas do que as que irá ganhar e repete-se em todos os desportos. Estar preparado para o erro, para falhar é estar atento à possibilidade de uma segunda hipótese. É trabalho para a vitória. Só estando consciente da dificuldade nos podemos preparar.

Uma equipa que só se prepara para ganhar, está condenada à partida. É uma equipa cega, sem experiencia de campo. Aqueles habituados a jogar sabem que o resultado depende da acção, não da esperança.

Cresci a ouvir o meu pai dizer a seguinte expressão:

“Fia-te na virgem e não corras.”

A frase remete-nos para uma piada que conta a aventura de dois amigos pelas savanas africanas. O único intuito deles era um safari fotográfico, pelo que não se muniram de armas de fogo. Ao serem surpreendidos por um leão esfomeado a galgar na direcção deles, um ajoelha-se e começa a rezar a Nossa Senhora, pedindo que esta lhe poupasse a vida. Ao que o outro amigo lhe responde com a dita frase.

A moral a retirar do conto, é de que a fé por si só não salva ninguém, a atitude é a única e verdadeira salvação e razão pela qual uns alcançam o sucesso e outros ficam ajoelhados a vida toda. Mas a fé, essa sim pode ser uma poderosa arma que mantém o esforço e a capacidade de feitos extraordinários.

Eu não sou católico. Embora tenha feito todos os esforços, inclusive baptizei-me por iniciativa própria aos 27 anos. Sim leste bem! Estudei, li a bíblia passei tardes a conversar com o padre que me viria a baptizar, fiquei fã e amigo dele, mas a dita religião não entrou em mim. Talvez não tenha tentado o suficiente, ou talvez tenha adquirido demasiado conhecimento no processo. mas tal como acredito que não basta ter bicicleta para nos proclamarmos ciclistas, não basta ter a biblia e uma ou outra tradição cristã, para sermos considerados católicos.

Mas sou um admirador dessa energia a que chamam de fé. Descobri que fé não tem nada a ver com religião. É uma energia que nos move em direcção ao desconhecido. É um verdadeiro motor, umas vezes rápido, outras lento, mas um motor potente que não pára. Acreditem ou não, movo-me por fé. Mas não baseada que alguém fará algo por mim só porque eu mereço e acredito muito. Acredito em mim. Acredito em quem trabalha. E acredito com uma fé inabalável nos poucos que até à data me viram de mangas arregaçadas e sem dizerem nada, arregaçaram as deles e se juntaram a mim, sem cobrar, sem explicar.

Fé é o que nos move, o que nos inspira a perseguir sonhos que construímos diariamente com trabalho e diariamente alcançamos o sucesso.

E citando novamente a mente brilhante que foi John Wooden:

“Sucesso é a paz de espírito que se obtém pela satisfação de saber que fizemos todos os esforços para ser o melhor de que fomos capazes”

Qualquer pessoa que dependa do seu esforço, do seu trabalho. Sabe neste momento que não, não vai correr tudo bem. Por isso essa gente, tal como eu, está cansada da prisão domiciliária que afinal não ensinou nada, não serviu absolutamente de nada.

E por favor, aos que se deram ao trabalho de ler este texto até ao fim, não venham com numeros de mortos e descrições do mundo hospitalar. Eu nao acordei para os males do mundo agora, há muito que sou uma pessoa interessada pelo mundo, pela politica, pela economia e um curioso das pessoas. Se te estão a mostrar uma unha negra, pisada e em muito mau estado, há muito que tenho conhecimento que existe todo um corpo que suporta essa unha. Por muito mau aspeto que a unha tenha, pensem de uma forma geral.

Não peço que pensem como eu, só peço que façam esse exercicio de pensar. Dói mais que qualquer outro exercicio, numa dor que se prolonga no tempo e quanto mais pensas mais dói, mas é o mais lebertador dos exercicios porque te dá independência intelectual.

“Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.” – José Saramago

Lembro que só no dicionário é que a palavra “sucesso” vem antes da palavra “trabalho”.

Só nos resta portanto, arregaçar as mangas e uma vez mais, reconstruir tudo de novo porque não, não vai correr tudo bem, mas eu já estou preparado!

2 responses to “Não, não vai correr tudo bem!

  1. Boas. Posso partilhar esta publicação? Acho deveras interessante e muito bem concebida.

    Atenciosamente P’la direção do veloclube

    Joaquim Realista 967527596

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