Ensinar uma criança a pedalar.

O que há uns anos era tido como um trabalho exclusivamente parental, cada vez mais sou requisitado e contratado para ajudar crianças e até jovens para os ensinar a andar de bicicleta e este ano bati o meu record de número de primeiras vezes.

Ainda me recordo do galo na testa e do poste responsável, quando o meu pai me empurrou para que eu ganhasse equilibrio e o medo foi tanto, qu evi no poste a minha salvação, a maneira de parar aquela montanha russa sem cinto de segurança, ali junto da Avenida Dr. Antunes Guimarães ainda lá vive o poste junto com as minhas recordações daquela dor de cabeça numa tarde de semana.

Apesar de ser algo que faço com enorme satisfação, é algo que requer tempo (que eu não tenho) e que em bom abono da verdade, não é assim tão difícil.

A maioria dos pais contactam-me porque já desesperaram, entraram em conflito e desistiram da tarefa de ajudar os filhos a aprender a andar de bicicleta e sempre que posso lá vou eu.

E quando finalmente a magia do equilíbrio acontece, ficam surpreendidos com a facilidade e com o pouco tempo necessário para que os primeiros metros em autonomia aconteçam.

Eu diria que dependendo da criança, ou do jovem, eu demoro entre uma a duas horas até que ele, ou ela se equilibrem e pedalem sozinhos.

Mas porquê que os pais estão a deixar de saber ensinar os filhos a andar de bicicleta?

Os erros são vários!

Primeiro o excesso de superprotecção. Arranhar os joelhos faz parte e um choro não mata ninguém por asfixia. Incrivelmente que me recorde, raramente cai alguém nas minhas aulas. Mas os pais partem para o desafio com a queda na cabeça e claro que se o que nos ocupa a cabeça é a queda, é certo que ela vai acontecer.

Se soubesses o quanto aquilo que pensas influencia tudo à tua volta, tinhas mais cuidado com o que pensas!

 

História real:

Há uns anos uns pais levaram umas miudas ao clube onde eu na altura treinava, queriam que elas praticassem ciclismo. Peguei numa bicicleta e sugeri a uma das pequenas (eram duas) que fosse até ao final do passeio e voltasse para trás, destemida assim fez. Assim que a pequena saiu a pedalar a mãe não se calou de gritar “ó fulana vais cair, ó fulana vais cair.”, obviamente que a miuda bem mandada, fez a vontade à mãe. Ela (mãe) vira-se para mim e diz: “Está a ver como ela nao sabe!”, ao que eu respondi “Que a miuda sabia, mas era educada e cumpriu ordens”.

E como já chegam ao terreno com o medo da queda, o nível de tensão é tal, que eu acho que nem durante a guerra fria os inimigos ela era tão elevada.

Depois as crianças estão a perder o entusiasmo pela bicicleta. Andam de carro para todo o lado, só podem andar de bicicleta sobe o controlo dos pais, dificilmente tem amigos para partilhar o momento e por isso a bicicleta não lhes diz nada, às vezes chega a ser vista como um castigo.

Há uns anos atrás estive numa escola secundária durante uma semana, a fazer apresentação de btt. Durante essa semana estive perante perto de novecentos alunos. No inicio das apresentações para quebrar o gelo, perguntava quem tinha bicicleta em casa e dos que respondiam afirmativamente, perguntava quantas vezes por semana pedalavam. Eu diria que apenas uns vinte por cento me reponderam que tinham bicicleta e desses, nem sei dizer quantos usavam semanalmente.

Mas o saldo foi positivo, desses novecentos alunos, houve um que se mostrou interessado e começou a praticar btt e ainda hoje o faz.

Eu faço a minha parte, tento salvar o mundo uma pessoa de cada vez.

Eu nunca ensinei uma criança a andar de bicicleta, nem eu nem ninguém! Porque o equilíbrio adquire-se, não se ensina.

Eu apenas utilizo técnicas simples para dar à criança ou jovem a oportunidade de adquirir o equilíbrio rapidamente e em segurança. São coisas simples e subtis que resultam em pouco tempo numa criança feliz a pedalar sozinha e a ganhar em poucos minutos um nível de autoconfiança difícil de conquistar de outra maneira.

O Vicente é meu sobrinho e ainda nem meses tinha para encher os dedos de uma mão, já o tio babado lhe estava a decorar o quarto com uma bicicleta, ou antes: uma balance bike.

Não tem pedais e servem apenas para a criança adquirir equilíbrio em duas rodas, onde usa as próprias pernas como meio de se propulsionar para a frente. Afinal de contas nesta altura acabaram de adquirir equilíbrio em cima das duas pernas, uma bicicleta no meio delas não muda muita coisa.

Embora ainda não tenha o tamanho para poder andar nela sozinho, ela (a bicicleta) faz parte da decoração do quarto, cresce a vê-la ali, disponível como estão todos os outros brinquedos e o que é a bicicleta para uma criança senão um brinquedo! Tão depressa como ainda há dias deu os primeiros passos, não tarda, sei que o vou ver pelos corredores de casa a trote no brinquedo.

A balance bike deverá estender-se até ao ponto da nova bicicleta, esta já com pedais, se adequar ao tamanho dele, isto obviamente só depois do Vicente ser capaz de dominar com mestria uma bicicleta sem pedais como se fosse apenas mais uma perna, ou um braço.

Não vai saber como foi aprender a andar de bicicleta, nem se vai lembrar da primeira vez, pois para ele foi um processo tão natural como começar a caminhar.

Andar de bicicleta é dos maiores prazeres que um adulto pode ter e dos melhores brinquedos que uma criança pode receber, mas quer para uns, quer para outros requer um bem precioso, tempo.

Um dia destes começo a fazer aulas de grupo para pais, só para vos ajudar a vocês pais a serem responsáveis por este momento mágico que é estar presente no momento em que descobrem o equilíbrio e a capacidade de dominar uma bicicleta.

Um bem haja a todos vós e boas pedaladas 😉

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