Vendi o carro para usar a bicicleta.

A semana passada li um artigo pomposo no Publico.pt, sobre um tal de Hugo que vendeu o carro e agora percorre um trajecto de 12 quilómetros por dia.

Há uns anos, pouco depois de ter iniciado o blog, em 2012 também eu vendi o carro para andar sempre de bicicleta. Bom, a situação está longe de ser assim tão linear, mas ficava bonita se a deixasse ficar só por aqui. Foi mais uma necessidade, do que opção, mas a verdade é que aconteceu.

Mas sendo ciclista desde sempre, a morar a uns míseros 500 metros de uma estação do metro (um verdadeiro luxo no Porto) e com actividades laborais mais ao menos organizadas, pensei:

Quem precisa de carro afinal?

Estava tudo absolutamente controlado. Moro perto do aeroporto e quando precisar, alugo um, o que não falta por lá são rentacars.

Em menos de dois meses a dispensa expôs prateleira que eu nem conhecia a sua existência, havia sempre coisas lá em cima. Depois de usar a maioria dos produtos armazenados na dispensa, a compra à medida da necessidade mostrou-se suficiente, mas extremamente mais dispendiosa, já que aqui perto não há nenhuma superfície comercial de relevo, o que obrigava a recorrer às pequenas mercearias com preços bem mais elevados. Lá cravei um carro e fomos às compras, enchi a dispensa novamente naquele mês.

Somos 4 cá em casa e na altura os miúdos tinham menos 6 anos cada um, assim como eu e a Mónica. Se ir trabalhar era tranquilo, pois a bicicleta fazia o serviço na perfeição, já as saídas de família tornaram-se um pesadelo, em vários aspectos. Uma criança de 6 anos é muito velha para andar em carrinho de bebé e muito novo para fazer vários quilómetros a pé. Restava o colo do pai. As viagens de metro de ida e volta, faziam com que a vontade de sair esvanecesse, o custo financeiro e a logística…enfim!

Sei que às vezes há uma futilidade total nas saídas “só para ir dar uma volta”, mas racionar as saídas garanto que também não trás saúde familiar.

Em menos de nada percebi que poderia não voltar a ter o carro que vendi, pois havia razoes fortes pelas quais o vendi, mas um carro era mais do que um “capricho” e devolvi à família um mal necessário.

Acho que estou a precisar de vender os carros novamente, é que tenho coisas na dispensa que estão lá desde essa altura.

Ao ler este artigo do público e com base na minha própria experiencia, só me vinha à cabeça a imagem de um violinista a tocar uma música triste e eu a pensar: “Que merda é esta?”.

Há uns anos aqui no Porto estava na moda os betos irem para as galerias (bares na baixa do Porto) com bicicletas fixed. Não tinha nada a ver com a mobilidade, hoje nem devem pedalar, ou sequer ter uma bicicleta em casa, mas na altura era fixe, era trend.

Eu não conheço o Hugo, nunca troquei duas palavras com ele. Não tenho nada contra e se ele é uma das pessoas que pode efectivamente abdicar do automóvel, fabuloso!

Diz o ditado “O lixo de uns, é o tesouro de outros”.

Mas a reportagem em si, leio-a como uma futilidade estúpida. Tendo em conta o espaço jornalístico e o potencial que o espaço num jornal destes pode significar, foi encher uma folha de palha, que trás de novo o mesmo como se a página tivesse sido publicada em branco e havia tanto de útil para abordar.

Conheço muitos “Hugos”, que aqui no Porto percorrem bem mais que 12 quilómetros por dia para ir trabalhar de bicicleta, deixam o carro em casa e vão de bicicleta por opção, porque o Porto ainda não é uma cidade congestionada como Lisboa e como tal poderiam ainda ir de carro e estaciona-lo confortavelmente, mas não, vão de bicicleta.

Talvez a mensagem da reportagem fosse que é possível viver sem carro, mas isso já nós sabemos, os nossos avós iam de bicicleta para o emprego, a região da Anadia continua a ter uma taxa elevadíssima de utilização diária da bicicleta e não é por causa do transito automóvel, é por uma questão de educação, ou talvez porque o novo riquismo que nunca lá chegou.

A influência para um futuro melhor não vem destes exemplos, vem da educação nas escolas, este é campo de batalha onde se travam as guerras do futuro, porque é deste que estamos a falar.

Sim é possível viver sem carro! Mas se ele faz falta? A muita gente, sim!

E já agora (outra coisa que vai fazer os hipster’s cuspirem-me em cima), se o Hugo quer dar um bom exemplo, que ponha um capacete.

O que ambos não compreendem, uns porque não sabem nada, outros porque acham que sabem tudo, é que o equilibro é algo ténue e às vezes a necessidade de compreensão sobrepõem-se ao conhecimento.

 

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