Como ser ÉPICO na mediocridade.

Como pais temos tendência para sobrevalorizar os feitos das nossas crias e simultaneamente para desvalorizar os defeitos e falhas delas. E com isto, estamos a valorizar a mediocridade e a fazer dela o maior sucesso destas crianças.

Como pai sou exigente e isso reflecte-se no meu trabalho como treinador de jovens. Não exijo que ninguém seja melhor que ninguém, mas exijo que os jovens trabalhem, que se esforcem e que cumpram objectivos e prazos. Não podemos permitir que andem aqui no limbo eternamente com palavras de incentivo à mediocridade como “quase”, ou “um dia consegues”. Imagine essa criança depois em adulta o patrão virar-se para ele com esse mesmo paternalismo e dizer “você esteve quase”, ou “um dia você consegue”. Sabe perfeitamente que isto não existe!

Por isso o treino desportivo não é só treinar atletas, é treinar crianças para que se tornem adultos eficientes, competitivos e sobretudo felizes por terem essas capacidades.

Faz-me alguma confusão quando vejo pais celebrar a mediocridade como se fosse um feito histórico.

Vivemos demasiado focados no reforço positivo, bater palmas a qualquer coisinhas e tornamos proporcionalmente o reforço negativo tabu. É proibido, imoral e socialmente reprovável repreender uma criança.

Um adulto de sucesso não se fez à custa de um mimo que se sobrepôs à educação. Aliás, se há coisa que me dá prazer é mimar os meus dois filhos. Mas mimo e educação são duas coisas distintas. Eu mimo os meus filhos quando lhes exijo resultados que eles acham impossíveis. Estabeleço metas, datas flexíveis e deixo que eles façam o trabalho, que esmurrem os joelhos mas de capacete na cabeça. Toda a gente da minha geração partiu um braço, um dedo, uma perna, a clavícula, ou foi suturado uma, ou varias vezes e estão cá para contar as histórias.

Não quero que ninguém se magoe, mas não há maior mimo que fazer alguém empurrar o limiar do medo um pouco mais para além.

Não há maior dano que o fracasso, que viver na mediocridade o resto da vida adulta.

Temos de perceber que, o “quase” pode ser o empurrão para o sucesso ou a medalha da incompetência.

Uma criança não é um adulto em miniatura e não tem as mesmas capacidades físicas e intelectuais, mas será um dia um. Precisa de regras, objectivos e calendários (se bem que alargados e flexíveis) para cumprir.

E se não cumprir, bato-lhe? Disparate!

Quando o Francisco nasceu, o Rafael já tinha 6 anos. Nós, pais apenas pela segunda vez, perguntamos ao pediatra:

– Doutor e se o Rafael quiser começar a usar chupeta e biberão novamente?

– Dêem-lhe, qual é o mal? – disse ele.

Naqueles breves instantes ficamos perplexos, eu tinha uma ideia completamente diferente, mas confiávamos cegamente nele. Mas as questões continuaram…

– Mas não há mesmo problema Doutor? – Continuamos, dada a perplexidade perante a resposta.

– Há, claro que há! Se ele quiser a chupeta, vocês devem dar, mas devem também tirar-lhe todos os brinquedos que ele tem. Se quer a chupeta porque o irmão que acabou de nascer e usa chupeta, então só tem direito aos brinquedos e regalias que o irmão também tem. Vocês vão ver como se forem firmes com isto, ele deixa logo a chupeta, porque percebe que não pode ter o melhor de dois mundos.

Cá em casa todos temos obrigações. O meu conceito de família é um núcleo onde todos têm um papel a desempenhar. Senão são só subsidio dependentes que habitam cá em casa. Se eu trabalho para manter um nível de vida e os meus brinquedos, eles se querem os brinquedos deles também tem de o fazer. Não lhes vou faltar com nada que seja a minha obrigação parental, mas os brinquedos e actividades lúdicas são ganhas com o mérito do esforço.

O sucesso escolar dá acesso ao desporto, o sucesso desportivo dá acesso a regalias e brinquedos e por ai fora.

O Rafael escolheu jogar futebol, mas ao fim de dois nãos passou para o ciclismo e assim está até hoje.

O Francisco foi logo para o ciclismo, por vontade dele saiu e foi para o karaté, saiu e foi para a natação e saiu novamente. No limbo de não saber o que quer, escolhemos nós, foi para o ciclismo novamente. Ou isso ou não tem telemóvel, computador e playstation. Mas eu não sou mau pai, continua a ter televisão, legos e bons livros juvenis. E todos os treinos há que cumprir objectivos, senão “o ordenado” dele, as regalias tecnológicas que mencionei anteriormente ficam suspensas.

No mundo dos adultos, quem não tem dinheiro não tem vícios. É bom que se vá habituando desde pequenino como vão ser as coisas em adulto.

Os estudos de marketing não enganam. Hoje 90% das decisões de uma família são influenciadas pelas crianças e os génios da arte da publicidade sabem bem com quem tem de comunicar, com quem manda lá em casa.

A complacência faz-nos acreditar que todas as crianças são bonitas e educadas, eu gostava de saber de onde vêm depois tantos adultos feios e mal educados.

Querem saber como fazer de uma criança um vencedor?

Não é a insultar, ou a gritar com o árbitro, exigir ao treinador que o ponha a competir, culpar os outros pelas derrotas, pelos fracassos, pelos erros, por tudo e mais alguma coisa. É a saber aceitar que o trabalho e o esforço compensam, aceitar a derrota, entender que NÃO significa NÃO, que não é tudo para nós e não podemos ganhar sempre, ou raramente se ganha.

Mas não há maior educação do que o exemplo e não há que enganar, por trás de uma criança feia e mal-educada, não estão uns pais lindos e carregados de valores.

Jean Pierre, tu va tomber.

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