Selins – Parte 5 “lombalgias”

Lombalgias são talvez o sintoma mais referido por praticantes inexperientes.

Chegou ao pé de mim a queixar-se de uma lombalgia terrível. Vinha de dois bikefits anteriores, muita descrença no serviço, mas, nas palavras do próprio:

“não há dois sem três”

“E o selim?” – Pergunto eu.

“Já tive uns 4 ou 5, se não estou em erro. Foi só gastar dinheiro! Mas o que tem isso a ver com as dores de costas?” – Responde

“TUDO!” – Respondo.

-“Mas nunca me falaram nisso (…) porquê?” – continuou a conversa por ali fora e também o trabalho…

Mal entrou com a bicicleta no gabinete e só de olhar para ela, era capaz de garantir que aquele praticante gemia de dores nos lombares.

É que não consigo olhar para alguém sem começar a avaliar a postura, da mesma maneira que não consigo olhar para um ciclista sem começar a tirar as mais diversas conclusões.

Neste caso, a bicicleta apresentava-se já com um selim Specialized  Power, que por acaso é um dos selins que pontualmente recomendo. Mas estava mal colocado, tão mal, que era perceptível a olho nu sem o auxílio de qualquer ferramenta.

É preciso respeitar a característica técnica de cada modelo em questão, é que no ciclismo há uma série de mitos e um deles, é que por alguma razão, todos os selins devem ser colocados horizontalmente.

Fiz o trabalho habitual, uma outra correcção menor, ao que seria a fundamental: a posição do selim.

Selim devidamente ajustado e passamos à validação de posição no terreno. Pois só depois de testada a posição na estrada, é que se pode dar o bikefit por concluído.

Alguns milímetros aqui, uns tantos ali e outros tantos acolá, com uma significativa alteração à posição do selim e pronto! Adeus dores incapacitantes.

Mas como é que um selim pode provocar lombalgias?

Só menos de metade dos praticantes que passam por mim nas consultas de biomecânica e bikefitting é que saem do gabinete com “receita” para trocar de selim; os demais salvam a alma e o corpo apenas com o ajuste do selim que trazem, tal como no caso mencionado.

Apesar da estética, o Adamo é dos selins mais funcionais para TT e Triatlos Longos.

 

Mais de 80% dos casos de lombalgia que passaram por mim, tinham origem no selim, sendo isto distribuído entre alturas excessivas, ou modelos de selim inadequados para o praticante e a explicação é muito simples de dar.

Se não leste, ou já não te recordas, dá uma vista de olhos por um dos artigos anteriores (link) e depois vota a este mesmo ponto.

Viste, ou recordaste a forma com se mede um selim? Pois! Aqui começa o problema.

A base mínima de apoio, por si só, é funcional quando o tronco se encontra na vertical! À medida que flectes o tronco à frente, começas a elevar os ísquios dessa base e a pressão começa a passar para o períneo.

 

O selim certo, com uma flexibilidade saudavel, permitem ao praticante ter uma posição relaxada e sem sacrificio em cima da bicicleta.

 

Mas à medida que o praticante se aproxima do guiador começa o problema. Para manter o apoio dos ísquios, num reflexo defensivo, o praticante mantem a bacia na mesma posição (vertical), aproximando apenas a parte superior do tronco.

 

O conflito com o selim, ou a falta se flexibilidade do praticante, impedem uma posição confortável e funcional do pronto de vista de performance.

 

Nesta situação de flexão à frente, é preciso salientar que pode haver outra origem nesta limitação. A flexibilidade do praticante tem muita influencia na posição.

Quando em plena avaliação biomecânica, a forma que encontro de determinar se o problema está no conflito com o selim, ou se se trata de pouca flexibilidade, realizo um pequeno e simples teste, que depois é confirmado com o movimento.

Pois numa avaliação biomecânica com o sistema Motion Capture, é possível analisar ambos os lados do praticante em simultâneo e qual a reação muscular à carga durante a pedalada.

Cada caso é um caso e embora a falta de flexibilidade entre os praticantes de ciclismo seja um problema digno de reflexão, a falta de atenção aos selins é de momento um problema maior.

Há uma revolução ergonómica nos selins, parece que os fabricantes acordaram para a necessidade de respeitar a fisiologia dos praticantes, ao invés de apenas pensar em peças esteticamente bonitas e leves, mas totalmente disfuncionais.

A flexibilidade tem muito mais influencia na selecção do selim, do que a largura dos ísquios algum dia teve, mas as duas avaliadas em simultâneo e com alguns testes de confirmação pelo caminho são a chave para o sucesso na selecção do selim às primeiras escolhas.

Infelizmente, ainda são poucas as marcas e menos as lojas que proporcionam aos clientes e praticantes serviços profissionais de aconselhamentos biomecânicos, ou simples testes de selins.

Até ao dia em que isso seja a maioria, sofram da carteira, e das lombalgias. Ou não!

Boas pedaladas.

By Pedro Silva

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