Mão nas costas, é ajudar ou não?

“Não julgues o livro pela capa.”

Naquele dia sei que algumas pessoas olharam para mim e pensaram: “Que grande besta!”

Mas devido às circunstância e como me confundiam com o pai da jovem, acredito que o juízo se ficava pelo pensamento e se inibiram de se manifestarem de forma explícita.

Aos olhos dos outros estava a castigar uma criança. Uma jovem adolescente cujo pai, certamente por uma questão de ego, ou qualquer outra razão a fizera participar num evento de btt e a obrigava a sofrer em cada subida,  apenar quilómetro após quilómetro e não sendo o próprio capaz de “deitar uma mão à pobre miúda”, para minimizar o sofrimento daquela criatura, ainda proibia que outros o fizessem.

Sentia este julgamento nos olhos daqueles a quem pedi para lhe tirar as mãos das costas, para não a empurrarem enquanto eu esperava no topo de cada subida.

Ninguém sabia, porque ninguém perguntou, que eu não era o pai dela, que ela ali estava por livre e espontânea vontade e qual a razão de eu não deixar que a empurrassem.

A verdade é que por vontade dela a participação teria ficado aquém de dez, dos trinta e cinco quilómetros que compunhas a distância a que nos propusemos. Mas quantos de nós não tem mais olhos que barriga?

Qual o mal de deixar alguém superar as dificuldades pelos próprios meios? Porque que tem de ir sempre alguém por a mão por trás? Como é que alguém pode achar que amizade é retirar o mérito da conquista pessoal? As pessoas empurram para que os outros se sintam melhor, ou para eles próprios se sentirem melhor pro mostrarem quem é o mais forte e o mais fraco?

Há várias formas de analisar a questão. Mas cada um que tire a sua elação da atitude, até porque pode variar de acordo com a ocasião.

Sempre que alguém supera pelos seus próprios meio uma dificuldade, por maior que seja, essa pessoa cresce. A autoconfiança aumenta, a condição física evoluiu ou não, isso depende de caso para caso. Mas de qualquer das formas, psicologicamente a pessoa sai aumentada e se isto tem valor num adulto, imagine numa criança, ser capaz de vencer um obstáculo que julgava intransponível.

Eu gostava que todos aqueles que me julgaram durante o percurso, tivesse presentes no momento em que pelos seus próprios meios, a Carolina cruzou a meta, quando a sentimento de dor ficou para trás e o sentimento de superação se tornou evidente num sorriso, numa felicidade sem preço.

Como é que eu me sentiria por privar alguém deste sentimento?

Nem sempre somos capazes de compreender no momento o objectivo final, por isso não nos apressemos a julgar sem compreender. Quando empurras alguém porque essa pessoa desistiu de pedalar, na verdade não estás a ajudar, estás a diminui-la, a mostrar que é dependente e que és evidentemente mais forte. E se não estiveres a inflar o ego com isso, também não estás a ser um grande amigo.

Cada situação é uma situação, mas na maioria dos casos de uma forma simples é isto que esse está a passar.

Afinal de contas nao estamos a falar de discutir posições numa prova, pódios, ou prémios, porque coitado do atleta que precisa de ser empurrado par alá chegar. Estamos a falar de construir personalidades, de contribuir para o bem estar de alguém, mesmo que na altura seja preciso deixar sofrer um bocado. Ou muito mesmo.

Cresci a ouvir o meu pai dizer a frase, que desconheço o autor, mas que me ficou sempre como lição:

“Não dês o peixe, ensina a pescar.”

Meus caros, que seja para vós um ano cheio de consquistas, sobretudo de valores pessoais.

Boas pedaladas.

Pedro Silva

 

 

 

 

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