Randonneurs.

A primeira vez que ouvi falar, soou a sociedade secreta, qualquer coisa como os Maçons, ou algo do género muito Indiana Jones, com um quê de aventura e mistério. E da segunda vez que ouvi falar soou a loucura, isto porque a pessoa que me falou nisto pela segunda vez, trazia na manga fazer seiscentos quilómetros num fim de semana e uma resistência de vinte e quatro horas logo no fim de semana seguinte (o que acabou por levar avante, com grande prejuízo para a segunda).

Ainda desenhávamos a época e o Paulo chega ao pé de mim com esta novidade: “Pedro, para o ano vou fazer os Brevets dos Randonneurs Portugal de forma a ajudar na preparação para as 24Horas de Famalicão.”

Já tinha tido contacto com um praticante desta vertente de ciclismo, pelo que o “estilo” não me era totalmente desconhecido.

Peço as datas e fico branco, já que o brevet dos 600 quilómetros, era uma semana antes, daquele que era o “nosso objectivo” para a época.

Mesmo pedindo com jeitinho, não demovi o Paulo da ideia, mesmo ele sabendo que certamente estaríamos a colocar em risco aquele que deveria ser o foco principal. Esta situação veio a confirmar-se, com um resultado catastrófico no dito evento, devido ao cansaço acumulado e à falta de tempo para uma recuperação.

Mas os Randonneurs apresentavam também um outro desafio não menos interessante.

Como já disse, os Randonneurs são ciclistas de longa distância, que certificam as distancias percorridas em “brevets” em eventos organizados, nacionais e internacionais. O objectivo é completar um conjunto de 4 distâncias, que lhes permite ter acesso a uma “ultra” distância de 1200 quilómetros. É que um ciclista não pode participar numa prova, sem antes ter completado uma de distância inferior e assim sendo, só tem acesso ao “brevet/evento” de 1200 quilómetros, quem antes completou as distancias de 200, 300, 400 e 600 quilómetros.

E assim foi!

A 21 de Janeiro deste ano (2017) começou a aventura. Com o nome de “L’Antique” e com partida em Vila Franca de Xira, o Paulo completaria assim o primeiro brevet de 200 quilómetros. Seguiu-se o “Lost” a 11 de Fevereiro, também com partida de Vila Franca de Xira, mas com uma extensão de 300 quilómetros. Por ficar perto, repetiria o Brevet de 200 quilómetros a 4 de Março, com o nome de CaMinho e com saída de Esposende. A 27 de Maio chegou a vez do “Alqueva400”, uma vez mais com saída de Vila Franca de Xira e tal como nome sugere, uma distância de 400 quilómetros. Aquela que nos veio estragar os planos acontece a 24 de Junho, o “Portugal na Vertical” teve a extensão de 600 quilómetros e acrescento o detalhe, 40 horas para ser terminado. Estavam assim completos os brevets que dariam acesso a que o Paulo pudesse participar no desafio maior, os 1200 quilómetros.

Dia 21 de Setembro arrancou de Lisboa para o que seria uma viagem de 1200 quilómetros em autonomia maioritariamente pelo Sul do Pais, um verdadeiro desafio ao corpo e sobretudo à mente.

Em todas estas etapas, há uma janela temporária para passar nos vários postos de controlo espalhados pelo percurso, a passagem sem o respectivo controlo dá direito a uma desclassificação que inibe o participante do acesso ao respectivo brevet e a impossibilidade de passar à próxima distância.

A particularidade é que não adianta ser ultra rápido, porque corre o risco de se adiantar ao horário de abertura dos postos de controlo e ter de esperar para validar a passagem no mesmo, o que poderá não ser mau de todo, uma vez que poderia aproveitar para descansar, mas se tiver o ritmo certo é melhor do que ir “à morte”, até porque parece que o espírito é esse mesmo, a regularidade.

1200 Quilómetros com 12.000 D+

Para os 1200 quilómetros deram inicio 30 participantes de varias nacionalidades, que só 25 viriam a terminar a distancia e receber o respectivo brevet.

Acompanhei o Paulo em todo o percurso da sua preparação para chegar aqui e muito embora o objetivo inicial não fosse este, acabou por ser o desafio maior. No final, acabamos por considerar que ficou margem para mais, para muito mais na verdade, foi tudo bem planeado e nada fugiu em momento algum do que estava desenhado. Tratou-se no fim, de um passeio de 1200 quilómetros que deu para tudo, mas sobretudo para admirar as estradas por onde passou, fisicamente muito folgado apesar das poucas horas de sono a que o evento obriga. Só lamento os 600 quilometros terem comprometido o objetivo das 24 horas, senão tinha sido um ano em cheio, tenho a certeza!

Mas Gabo-lhe a coragem de partir nestas aventuras.

 

 

Créditos:

Texto: Pedro Silva 2017

Fotos: Randonneurs Portugal

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