Raízes

Somos o resultado do caminho que percorremos, de todas as experiência e pessoas que se atravessaram no nosso caminho. Acabamos por ser uma soma e nunca uma subtracção.

Não me hei-de dar ao luxo de morrer, sem antes deixar a minha vida escrita em 300 páginas, para que os meus filhos compreendam a pessoa que fui, o pai, o marido e o amigo de alguns.

Sinto-me uma pessoa realizada, o que sonhei converti em realidade e voltei a sonhar, para ter o prazer de voltar a realizar, não sei estar de outra forma, é este o resultado do que vivi. Acho que devo isso ao facto de me ter tornado ciclista e é aquela mania parva de ciclista não reconhecer derrota, de não saber desistir, de não saber o limite, porque está sempre a descobrir um novo.

Lembro de ser pequeno, muito pequeno e vivia colado ao meu primo João, ser primo e irmão naquele tempo era praticamente a mesma coisa. Acho que até ao final da minha adolescência vivi mais em casa dele, do propriamente na minha.

Separados por dois anos de diferença e umas poucas centenas de metros da casa um do outro. No meio do caminho haveria de haver a oficina do Sr. João “Sapateiro”. Não fosse o Sr. João “Sapateiro” ser avó paterno do meu primo João, o primeiro nome seria apenas uma coincidência, mas na vida há poucas coincidências.

Havia tardes em que eu e o João, o primo, passávamos horas sentados a ver os boiús (prefiro escrever assim como sempre pronunciei, do que o nome em Francês) amontoados no chão, à espera de vez para serem remendados e voltarem à estrada.

Talvez por modernice, ou para aportuguesar o nome, agora chamam-lhes “tubulares”, quando eu era miúdo eram “boiús” e todo o ciclista sabia perfeitamente do que se tratava. Mas agora também chamam “running” ao atletismo!! Nesta nova senda de praticantes, acham que isto é uma inovação tecnológica, mas o Sr. João tratava-os por tu e eu e o primo, às vezes tratávamo-los por “você”, isto porque ás vezes tocava-nos dar uma mãozinha a descoser os ditos para aligeirar o trabalho do Mestre João.

O Sr. João era conhecido como Sr. João “sapateiro”, era isso que garantia o sustento lá da casa, isso e a oficina de serralharia que também ele tinha. Mas nos tempos livres era treinador de ciclismo no clube lá do bairro, o Centro Ciclista de Aldoar.

Lá por casa acho que todos andavam metidos no ciclismo, como se fosse o ópio do povo, o meu tio Xavier andava nas horas livres do trabalho. É que o ciclismo sempre foi esta pobreza, ou vais por amor à camisola, ou se pensas ficar rico, é melhor ficares em casa.

Lembra-me de ouvir o meu tio Xavier na sede a contar as aventuras dele nas provas que ia fazendo, entre copos e canecos, aquele brilho, as gargalhadas, o prazer com que trocava aventura como criança que troca cromos.

Como é que de uma corrida de bicicleta, se trazia tanta felicidade?

Calções de lycra pretos com “Bicicletas Cosmos” escrito nas pernas, a camisola de algodão verde garrafa com as letras “C C Aldoar” em o tecido branco cosidas no peito e nas costas, os sapatos em pele, com uma cunha de madeira pregada à sola, que depois de encaixadas nos pedais terminavam o aperto com a puxadela nos açaimes e as bicicletas e o brilho das bicicletas?…

Aquilo fascinava-me!

Os meus pais deram-me o melhor que sempre tiveram, mas isso não incluiu as bicicletas para que eu pudesse correr e tentar sequer um dia ser profissional, passei essa fase ao lado. Aos treze anos o meu pai tentou compensar-me com uma bicicleta de montanha, eram menos conhecidas e mais baratas que as de corrida, maneira como eram chamadas as bicicletas de estrada na altura e por ali fiquei.

Não tenho a menor dúvida de quem foi a pessoa que mais me influenciou na vida, que me fez tornar naquilo que sou hoje, não me arrependo de nada do que fiz, à excepção de ter deixado o meu tio Xavier partir, sem lhe dizer o quanto ele influênciou o meu caminho até hoje. Não há volta de bicicleta que ele não vá comigo, em memória é claro.

O Centro Ciclista de Aldoar acabou há muito, a Cosmos, encerrou a actividade há uns anos o ciclismo, há quem diga que vive dias de glória e eu, eu cá vou pedalando sempre que posso e a fazer os possíveis por espalhar o vício da mesma foram que fizeram comigo e encontrar pessoas que sintam a mesma felicidade que eu, apenas por saltar para cima de uma bicicleta e descobrir o mundo de uma forma diferente.

O tempo passa, as coisas mudam, as pessoas mudam, mas esquecer? Isso jamais!

Se esquecemos as raízes, como podemos lembrar o caminho que percorremos e não soubermos este, então como sabemos o que somos?

E pensar que tudo começou por andar a descoser boiús, acho que hoje seria considerado trabalho infantil, já para não mencionar o facto da faca extremamente afiada que nos era colocada à disposição para cumpriri o objetivo! Aquilo é que foi uma infância, quantas histórias para contar!

Há dias agradeciam-me por ter ajudado a descobrir o que é ser feliz em cima da bicicleta, eu sinto-me um priviligiado por ter descoberto isto ainda criança e ter-me recusado e a largar quando adulto.

Há quem compre bicicletas para fazer desporto, para competir, para ganhar saude, perder peso, deslocar-se, superar-se, quebrar limites, ir mais além que a natureza humana permite, mas um pequeno punhado de pessoas, compra bicicletas apenas para voltar a sentir aquela felicidade genuina e descomprometida de quando eram apenas crianças e que mal tem isso, é apenas o melhor sentimento do mundo.

Escolhe para onde vais, não te esqueças nunca de onde partes, mas sobretudo, disfruta do caminho.

Boas pedaladas 😉

11jul2017

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