Um bilhete para o espetáculo.

Durante muitos anos o ciclismo foi acolhido e conhecido com o desporto dos Pobres. Era o desporto que se afastava das grandes metrópoles e visitava as vilas, as aldeias, os lugarejos escondidos por esse pais fora e as pessoas acolhiam-nos e brindavam a nós, nem que fosse com a água fresca acabada de tirar do poço.

Esse espírito não morreu, o ciclismo continua a ser o desporto de sempre, hoje retirava o rótulo “pobres” e substituía por “de todos”, é o único que vive em comunhão com a população por onde passa e essas populações nos ditos lugarejos, continua a gracejar-nos com palmas, incentivos e a bem dita água fresca do poço.

A mítica Volta a Portugal e outras tantas provas menos faladas continuam a percorrer estrada por esse Portugal fora, a levar o ciclismo em direto por onde quer que passe, mas nós só podemos ver de fora e imaginar o que seria, como será estar ali naquela moldura que recebe palmas e sorrisos e que mostra a gratidão com suor e esforço e por vezes, mais do que as seriam de desejar, sangue. Mas ciclista ensina que desistir não é opção e de ficar no chão a rebolar como uma menina é coisa de futebol, porque aqui até as meninas são rijas, aqui cai levanta e segue, no final limpam-se as armas que em tempo de guerra não há tempo.

Lembro-me disto a propósito do último GranFondo que participei.

Há uns dias quando conversava com um amigo, ouvia as criticas dele quanto ao evento, cada um tem a sua opinião e tal como lhe disse na altura, não conseguia ver as criticas dele como algo de relevante face a tudo o resto. Mas cada um faz a sua avaliação pela experiência e pela espectativa criada.

A organizadora do evento espera o lucro, mas o que vende é o bilhete para uma experiencia.

Na minha opinião, se estão a olhar para a refeição que vos é servida, do que ela é composta, ou a apresentação da mesma, se estão a contar com os brindes dentro do saco que trazem o dorsal e o frontal, se contam os bancos em número limitado que estão à disposição para a refeição, ou se avaliam pelos balneários que estão à disposição, se foi atrás disso que foram, então talvez tenham razão, é caro!

Mas estão a perder o verdadeiro evento para que compraram bilhete, é quase como ir ao circo e ficar a criticar tudo que se passou fora da tenda.

Há uns anos fui ao circo e fiquei horrorizado com os bancos em madeira e as condições de segurança, os meus filhos só falavam dos palhaços, dos animais, dos malabaristas e do mágico, quem estava errado ali era eu, paguei por um bilhete e não me deixei fascinar pelo mesmo. Compreenderam?!

Um Granfondo é onde amantes da modalidade por um dia brincam aos campeões.

É dado o tiro de partida para mais uma prova de cicloturismo, vão todos enganados a pensar que estão numa corrida, o cronómetro que se inicia com o dito tira ajuda a enganar como se de uma competição a sério se tratasse, mas alimenta o ego, afinal estamos lá para brincar aos campeões, porque é isso que sai de lá egos inflados em campeões de brincadeira.

Rola o pelotão até que a primeira subida se encarregue de separar o trigo do joio e mesmo o próprio joio depois lá terá várias categorias. Os quilómetros passam e cada um é chamado à sua realidade, há os que treinam muito e ficam atrás dos que apenas andam de bicicleta, há os que mal andam de bicicleta e também lá andam com o mesmo direito dos primeiros, partiram todos por ordem de pagamento e não por categoria, ou watts nas pernas, é cicloturismo do bom.

Não falta nada, até presunto nos abastecimentos sempre bem, muito bem apresentados e bem colocados, ia jurar que uma ocasião até espumante vi num deles, os mais rápidos são como os miúdos, nem a feijão querem perder e nem para disfrutar o que de melhor tem estes eventos, mais fica para os que não prescindem destes verdadeiros repastos.

Rola, sobe, desce, volta a rolar, a subir a descer a meta não deve tardar e ei-la, o objectivo de alguns, porque de outros é que o convívio dure, qual intervalo de escola em que desejamos que dure tanto  emoção? Acreditem o pavé é bem pior e mesmo assim faz parte da experiencia. Todos querem andar na montanha russa, mas reclamam dos enjoos, não há bela sem senão, sabem que eu adoro pedalar, as subidas é que são chatas, mas sem elas não há descidas.

Um GranFondo é isto! Sim é um evento em que a trocos de alguns euros temos acesso a um mundo imaginário, que nos faz sentir verdadeiros ciclistas, que nos dá de tudo um pouco, nos faz acreditar que somos bons, que faz-nos querer ser melhores praticantes, em alguns casos, melhores pessoas. A troco de um bilhete faz-nos reviver momentos de glória, ou imaginar como estes teriam sido, a troco de uns míseros euros, que nunca serão demasiados se nos sentirmos um Froome, um Sagan, um enorme e vitorioso Rui Costa, que nos traga o brilho aos olhos e o sorriso aos lábios, ao fim de uns tantos quilómetros contratados, a voz do speaker anuncia a chegada e o fim do bilhete, mas ainda temos a meta, a cereja no topo do bolo, cem metros à campeão, cem metros ladeados por grades cheias de patrocínios, qual Grandíssima, qual Giro, qual Tour e vem aquele arrepio de dentro que se manifesta na pele, é alegria, é emoção da superação, da experiencia única e eu pergunto-vos, é caro?

As estradas são públicas, os estabelecimentos comerciais estão por lá todo o ano para nos abastecer, podemos fazer isto em qualquer altura, sem pagar bilhete, mas também sem participar no espectáculo e fazer parte dessa moldura humana, não terá menor valor isso, é outra experiencia. Afinal de contas, é de experiencias que falamos.

No dia em que o ciclismo deixar de me dar este arrepio, este frio na barriga, esta “pele de galinha” este querer mais, nesse dia, preciso perceber se sou eu que deixei de ver o circo, ou se o circo não é para mim porque eu cresci e o circo só vê magia, quem tem magia dentro.

Boas pedaladas ciclistas.

Pedro Silva

19Jun2017

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