A ovelha negra.

Toda a família tem uma ovelha negra! Aquele familiar de sangue, ou por “aquisição” que todos desejavam não ter.

O “ovelha negra” tem um comportamento que não se enquadra na filosofia da família, é o ladrão da família honesta, o porco da família asseada, o mal educado da família com educação, o vigarista, trapaceiro, sem moral, sem valores na família com tudo no sitio. É o individuo que desejava-mos ver longe de nós, longe da família, que ninguém soubesse da sua existência, muito menos que de alguma forma, este está relacionado a nós!

O problema é que quando a família cresce, as ovelhas negras crescem proporcionalmente, podendo atingir números de tal ordem, que que os seus actos se destaquem de tal forma que colocam em causa o maior numero de indivíduos cujo valor e atitude é digna de louvor.

A ovelha negra não deixa de ser um caso pontual no meio das demais ovelhas, mas o seu comportamento errático que faz dela negra, não é pontual, é permanente para onde quer que ela se vire e muitas vezes podemos ver ovelhas negras juntas, se bem que por pouco tempo, porque nem elas de toleram a si próprias.

E sendo o ciclismo uma família, também ela tem ovelhas negras, oh se tem!

E assim de repente lembro-me de pelo menos 5 tipos delas que já tem passado por mim…

Os donos disto tudo

Estou com a “primeira” engatada e o pé pousado ao lado do acelerador, o carro sobe a uns quinze quilómetros hora, não mais do que isso, já é a segunda vez que ouço na rádio “Despacito” sem mudar de emissora, a subida vai longa.

À minha frente três amigos de bicicleta sobem a uma cadência aproximada de oitenta rotações por minuto, já deu para cronometrar, vão abaixo do limiar anaeróbio pela maneira como conseguem conversar, a BERMA é limpa e de alcatrão muito bom, não fosse a falta de respeito de irem a par já me tinham facilitado a ultrapassagem à muito, a mim e à meia dúzia a uma dúzia de outros automobilistas que vem atrás de mim no mesma situação, a dizer que todos os ciclistas são uns anormais.

Todos não! Só estes três que vão aqui à minha frente!

A maioria dos que vão atrás de mim, optam por pisar a linha continua no eixo da via e ultrapassam aos três, ou aos quatro carros de cada vez, haja motor e coragem, ou apenas irresponsabilidade. A visibilidade de curva para curva é má. Chega o patamar e a reta, opto por baixar o vidro do lado do passageiro e assim que posso, aumento eu a cadência do motor e coloco-me a par do par (aqui a visibilidade é excelente e a linha continua já terminou uns metros atrás).

Pergunto carinhosamente se os posso ajudar a respeitar os demais utilizadores da via e pela arrogância com que é recebida a minha solicitação, avanço uns bons metros paro o carro e saio dele só para uns esclarecimentos de atitude. Três ectomorfos na casa dos vintes e tais, sou mesomorfo bem constituído e eles souberam medir bem as palavras e a conversa acaba em “desculpas”, la seguimos todos viagem.

Apesar de naquele dia ir dentro do meu carro, manifestei a minha indignação e quem falou de dentro do automóvel, foi o Pedro ciclista e não o Pedro Automobilista. É a imagem que passamos e um, estraga o respeito conseguido por milhares.

E o respeito não se exige, na minha opinião conquista-se através do exemplo.

Quer na escola de ciclismo onde treino jovens ciclistas, quer com qualquer um dos atletas seniores com que trabalho, há uma REGRA de OURO: o RESPEITO!

Na escola de ciclismo ensino os miúdos a circularem no eixo da via mais à direita, o objectivo é tronarem-se o mais visíveis possíveis e forçar os automobilistas a reduzir a velocidade, mas se a via for de uma faixa apenas, logo que o automóvel esteja à velocidade deles, deverão encostar e facilitar a ultrapassagem desde que isso não os coloque em perigo (como por exemplo: quando a berma está demasiado deteriorada), não forçar o automobilista a ir ali a passo de caracol apenas porque sim é respeita-los como iguais utilizadores da via.

Os snobs

Vou pela estrada fora em cima da minha fininha, um pelotão numeroso cruza-se no sentido contrário e solto um sonoro: “Boas…”

Nem pio do outro lado. OU vão a cumprir um minuto de silêncio por alguém, ou seria o pelotão de alguma associação de surdos-mudos? Ficou a dúvida!

Parece que à medida que o número de praticantes de ciclismo cresce, o amor pela bicicleta desaparece no meio de tanto entusiasmo.

Quando eu era pequeno via que as pessoas primeiro gostavam da bicicleta e só depois do ciclismo e foi assim que comecei e que hoje me vejo.

Chego a ter saudades de quando era-mos apenas meia dúzia que até passávamos despercebidos, conhecíamo-nos a todos e havia um respeito mútuo manifestado através de um simples cumprimento sempre que nos cruzávamos com um ciclista, fosse na estrada, fosse no monte.

Agora, à medida que vou acumulando quilómetros seja na estrada, ou no monte, noto que o velho hábito de ter educação e cumprimentar está a desaparecer, pergunto-me de a ideia do “elitismo da estrada” estará de volta a alguns “pelotões”, ou será que sou eu que tenho azar com os caminhos que escolho?

O porco.

Vai a curtir o teu “Granfondo” num dos mais belos e idílicos cenários do mundo, por sinal Património da Humanidade, declarada pela UNESCO desde 14 de Dezembro de 2001.

A bicicleta desliza no alcatrão, a brisa refresca-me e eis que levo com uma embalagem de gel na roda da frente, mas de onde é que isto veio?

A amostra de gente que vai à minha frente a acompanhar a “patroa”, enfarda um gel e num golpe de “homem” à macho dominante, atira o tubo do gel ao chão, acabando por elevar eu com ele. Não teve sequer o respeito de olhar para o lado, não se preocupou em ver se acertava em alguém, ou pelo menos tentar disfarçar o gesto, grosseiro, desrespeitoso e despresível, foi assim, como se aquilo fosse tudo dele e mais tivesse, mais fazia.

Pagou, por isso alguém que limpe!

O campeão

Esta em especial, ficou-me na memória pelas piores razões.

Maratona de Avintes 2016, dado o arranque vamos todos em manada quais Gnus, quais quê.

À primeira apertadela (afunilamento) do trilho pára tudo em fila mais ou menos organizada, só passa um de cada vez no estreito por isso de nada adianta ter pressas, além do mais os vencedores à muito que se foram. Parado como os outros quando sou abalroado por um “campeão”, “um fura-filas”, que com a pressa se esquece de pedir desculpa, mas o karma é lixado e o caminho estreito e pára poucos metros à frente como os outros e eu lembro-o do pedido de desculpas que se esqueceu de dar, ao que ainda me responde:  -“Ó amigo não esteja nervoso”  e ao que eu respondo, “se a luta pelo cagasésimo lugar estava a ser boa”, ao me ver a ficar verdadeiramente nervoso, lá pediu desculpa.

Um pouco mais à frente terminei a minha maratona para dar assistência a uma queda grave de uma participante.

Mas este foi apenas um exemplo, porque os “fura-filas” estão em todo o lado, não me refiro a ultrapassagens quando o grupo está a andar, mas sim aos que apesar de verem que estão todo sparados e à espera de vez para passar, insistem em passar primeiro que todos, ao que percebo há primeiro, segundo e terceiro lugar para cagasésimos lugares.

O oportunista

Eu e o Sérgio lá vamos a fazer a nossa primeira maratona da época,  Campeonato Regional do Minho, prova do Raid do Facho” 2017 (evento com uma organização soberba). Somos colegas de equipa e numa das subidas lá íamos juntos, sensivelmente a meio da mesma, uma outra dupla com equipamentos iguais e de um grupo de daqui do Porto pergunta se temos bomba, encostamos os dois.

Vou eu a tirar a minha bomba para emprestar, quando o Sérgio o faz mais rápido que eu e logo monta na bicicleta, dizendo:

-“No final entreguem a alguém do Btt de Matosinhos (somos fáceis de identificar), que alguém me há-de fazer chegar a bomba” – e seguimos a prova.

Ainda lhe perguntei se ele não queria esperar, eu não teria deixado a minha, até porque poderia precisar dela mais à frente e não sei se parariam para mim, tal como faço pelos outros, mas dada a insistência dele que “era tudo boa gente” lá seguimos.

O Raid do Facho aconteceu a 19 de Fevereiro de 2017, o Sérgio até à data de hoje, mesmo após muito custo a identificar a pessoa a quem emprestou a bomba, ainda não a recebeu. Como ele próprio diz, não é pelo valor, é pela atitude.

A verdade é que há hoje praticantes de ciclismo, a quem lhe falta o que chamaria de “berço”, ou melhor dizendo, falta-lhe a “escola”, a educação que lhes permitiria compreender o que é ser verdadeiramente ciclista, que é mais que ter uma bicicleta empinocada e Koms no strava. Mas hoje vivem todos felizes a comparar pulsos, médias, watts e a mostrar que tem a maior pila lá da rua deles e educação e respeito que é bonito, nada!

Não percebo o que vai na cabeça desta gente! Mas porque raio vieram parar ao ciclismo? Estávamos tão bem sem eles! Por favor descubram a próxima modalidade sensação e desapareçam…ouvi dizer que o Trail é fantástico!…

Boas pedaladas e caso sejam um destes exemplos, se não tencionam abandonar este fabuloso desporto, pelo menos comecem e ter respeito pelos que o praticam e pelos que não praticam tambem.

Abraço e boas pedaladas.

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One response to “A ovelha negra.

  1. Excelente texto. Vejo-me e revejo-me nele. Estou de acordo com todas as palavras escritas.
    Sou apenas um ciclista amador. Adoro saborear o caminho que faço e tirar umas fotos. As vezes até paro 2 ou 3 vezes num espaco de 100 metros. Kkk
    Por norma cumprimento sempre todos os colegas, o lixo vai comigo até casa ou ao próximo caixote de lixo. Seja num domingueiro, ida a Santiago ou maratonas. Nunca empurro ninguém e fico f#@## quando me fazem isso. Enfim…
    Muito bom o texto.
    Cumprimentos e boas pedaladas.

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