Pré-bikefit vale a pena?

Volta e meia há alguém que me liga, ou manda email a perguntar se eu faço os “pré-bikefits” e ficam admirados quando respondo que não tenho o hábito de os fazer! Mais admirados costumam ficar, quando lhes resolvo os “problemas” em poucas linhas, ou poucos minutos de conversa e de forma gratuita.

Mas se sabe o que é um bikefit, certamente que tem ideia do que poderá ser um pré-bikefit.

Vou levantar o véu da questão, porque como sempre, quando surge uma inovação tecnológica e o desporto está cheio delas, há sempre muita confusão e os praticantes vão na molhada sem perceber o que podem beneficiar e na maioria das vezes, pouco ou nada beneficiam.

O que é um pré-fit?

Um pré-fit, é a avaliação biomecânica antes da aquisição de uma bicicleta nova e que vai determinar toda a configuração da mesma, no fundo é ter uma bicicleta “à la carte” para que o atleta obtenha a máxima performance.

Medição digital da bicicleta realizada pelo sistema 3D motion Capture do projetopedal

Os “gostos” pessoais estão aqui postos de parte, isto é ciência!

Neste sentido há questões fundamentais, absolutamente incontornáveis que devem ser criteriosamente analisadas.

Vou-vos levar numa visita guiada naqueles que são, para mim, os itens fundamentais a determinar no pré-bikefit e como é que se chega a essas conclusões.
  1. Tamanho do quadro;
  2. Marca e modelo de selim;
  3. Tamanho de Cranks;
  4. Largura e forma de guiador.
  5. Comprimento e ângulo do avanço do guiador;
  6. Andamentos;

1.Tamanho do quadro

É a questão basilar na selecção da bicicleta, mal escolhido muitas vezes não há solução a não ser voltar atrás. Mas é na verdade a questão verdadeiramente mais simples, mas a que mais erros ostenta entre os praticantes.

Há uns anos atrás, movido pela curiosidade e vontade de ajudar praticantes, desenvolvi um estudo, onde recolhi dados de nem mais, nem menos, do que 600 praticantes. Os ddos recolhidos foram desde: medições antropométricas e opiniões sobre percepção de conforto, cruzados com dados de avaliações biomecânicas antes e depois dos ajustes e recomendações.

Desse trabalho saiu a seguinte tabela e orientações. (Link para artigo completo: aqui)

Em caso de dúvida, recomendo que opte sempre pelo tamanho de quadro mais pequeno.

2.Marca e modelo de selim

O selim é “A” peça chave da bicicleta e salvo rara excepção, é totalmente negligenciado e escolhido por questões estéticas ao invés de questões morfológicas, de saúde, conforto e mesmo performance. E se eu lhe dissessem que o selim errado influência o “Santo Gral” dos ciclistas, o VO2Máx, deveria começar a olhar para este de outra forma, um dia destes dedico um artigo só ao selim.

 

SMPOs selim até à data são vendidos nas lojas de acordo com dois critérios distintos e raramente em conjunto. O primeiro e mais comum é a medição da largura dos ísquios “et voilá”, tem a sua receita de selim feira. A outra, não tão comum, é a medição da flexibilidade lombar do praticante e uma vez mais “voilá”, temos a receita pronta.

Não que seja complexo analisar o selim “certo”, ou “errado”, mas são questões simplicistas, que na verdade se completam e que deveriam ser realizadas as duas técnicas em conjunto, num contexto onde cabem outros parâmetros como IMG, peso, função, entre outros…

 

3.Tamanho de crancks

É aqui que as coisas se tornam verdadeiramente complexas.

Podemos recomendar um determinado tamanho de cranks, baseando-nos exclusivamente na morfologia do praticante, por exemplo: perna curta, manivela curta e vice-versa.

Mas para falar delas, temos inevitavelmente de abordar o tema da cadência. Extremamente controverso, nada consensual e volto a repetir e de uma complexidade extrema, escolher umas manivelas tendo em conta a cadência leva-nos para testes, avaliações e muito tempo e muito dinheiro, tudo para concluir o manivela ideal, não para o “tamanho da perna”, mas para o músculo dentro da perna.

É um trabalho possível de fazer, mas esqueça o bikefit de 2, ou até mesmo 3 horas, porque mesmo que se recorra a avaliação por electromiografia, os dados carecem de análise, reflexão e testes exaustivos, tudo isto, se calhar para ganhar até valores notáveis, mas, uma vez que a alteração da pedalada/cadência (que não é o que se discute neste caso), precisa de alterações neuromusculares que levam meses, ou mesmo anos a serem eficientes e perceptíveis.

(nota que o que está a ser discutido é a relação custo/beneficio do processo, porque toda a personalização se traduz em beneficio a curto/médio prazo)

Já se for um profissional, obviamente que todo o investimento faz sentido, principalmente se estiver no inicio da carreira, onde as alterações tem mais significados e o tempo de adaptação e beneficio retirado desse investimento será consideravelmente mais vantajoso, mesmo que o ganho se traduza numa melhoria de 0,05%.

 

4.Largura e forma do guiador

Básico!

O praticante deve está em pé, ou sentado num banco com as costas direitas,  ajudante pega na fita métrica, estica nas costas de ombro a ombro e lê o numero, essa é a largura do guiador a comprar. Na bicicleta de estrada os braços deves estar perfeitamente paralelos quando as mãos estão no guiador, por isso a “norma” de se medir a largura de costas, de ombro a ombro e replicar no guiador a medidas destes.

Já o “formato” do guiador poderá ser um pouco mais complexo, se bem que a actual tendência e que eu próprio tenho feito muitas orientações, são os guiadores chamados “compactos” e que ergonomicamente assentam como uma luva, dos praticantes mas exigentes e experientes, aos que se encontram no oposto dos primeiros.

O guiador compacto é exactamente o que o nome quer dizer, compacto! De “reach” bem mais curto que os seus sucessores e com “drops” mais apertados proporciona conforto tanto na posição superior, como com as mãos na posição inferior, uma vez que esta passa a ser mais elevada.

 

5.Comprimento e ângulo do avanço do guiador

Não é de estranhar que tenha precisamente a mesma estrutura física de um atleta de elite, no entanto ele pedala com um avanço de 120mm de comprimento e -17º e meu caro não aguente um de 100mm com -6º sem que experimente o desconforto de uma lombalgia

O ideal para o praticante de lazer, seria que o avanço nunca fosse inferior a 90/100mm de comprimento e andaria nos 6º negativos, mas o avanço que utilizamos é o reflexo da nossa condição física.

Coloque-se em cima da bicicleta, as mãos deves estar bem agarradas às manetes e o cotovelo ligeiramente flectido, se não sentir tensão no pescoço, ou nos lombares, o seu avanço andará próximo dessa medida.

 

6.Andamentos

A escolha dos andamentos é feita em função das tuas capacidades física, do teu FTP (functional threshold power). Aqui o melhor é pedires ajuda a um treinador, porque só com uma avaliação física é que poderás ter uma noção do que realmente se adequa a ti.

Actualmente a maioria das bicicletas vêm equipadas com o que se chama de “pedaleiros compactos”, cuja relação à frente é de 50/34, significando que o prato maior tem apenas 50 dentes e o menor terá 34, traduzindo-se isto em mudanças mais leves, confortáveis com pouca velocidade de ponta, mas boas para subidas nos praticantes menos treinados.

 

Resumo.

Embora o ideal seria desenvolver toda uma bateria de testes o “pré-bikefit” + “avaliação física” de forma a trazeres da loja toda uma bicicleta montada especificamente para ti, contudo, a relação custo benefício para a maioria dos praticantes, faz com que a realização do pré-fit seja incomportável, ou injustificado.

Sais do pré-bikefit com todas as especificações técnicas para a tua futura bicicleta: tamanho de quadro, selim, comprimento das manivelas, largura de guiador e forma deste, tamanho e ângulo do avanço e andamentos a utilizar (pratos + cassete). Além, da óbvia posição/medidas em que todo o conjunto deve ficar.

Quando tudo que realmente querias, era saber o tamanho do quadro certo para ti, porque comprar uma bicicleta à medida, sai caro, muito caro e substituir peças num modelo “standart”, sai igualmente caro.

Porque tal como na alta costura, ainda há alfaiates que fazem tudo à medida, mas a verdade é que a maior parte de nós, só tem dinheiro para o pronto a vestir, por isso o que importa é saber o numero exacto das calças e depois em casa tratamos das bainhas.

A ciência tem resposta para tudo e para o que ainda não tem, haverá de ter, mas onde o bom senso impera, dispensa a ciência. Quem realmente quer um pré-bikefit que sinta satisfeito por pagar pelo serviço, terei todo o gosto em fazê-lo, mas a verdade é que consigo ajudar os praticantes nas questões fundamentais, sem que estes tenham de gastar mais do que tempo para colocar as questões e posteriormente ler as respostas (de acordo com a minha disponibilidade de tempo obviamente).

Um bom profissional numa loja, também será capaz de o fazer, embora infelizmente tenha passado por mim vendas de maus profissionais, isto de montar uma loja de bicicletas não deveria ser só “fazer dinheiro”, pois para sermos bons profissionais, primeiro há que haver muita paixão por aquilo que fazemos e querer fazer melhor.

Eu entendo que não precisamos de ganhar dinheiro com tudo, embora ninguém deva trabalhar de borla, mas às vezes estar a vender algo que as pessoas não precisam e não sabem sequer o que estão a comprar…é uma questão de princípios, cada um com os seus.

Mas no entanto, se o orçamento para si não é um problema, sim tem todo o beneficio em fazer um bom pré-bikefit que analise todas as variáveis, no entanto se anda à procura da bicicleta com o melhor preço, esqueça, escolha bem o seu tamanho de quadro e quando a tiver nas mão, ligue para marcar o bikefit e pôr essa bicicleta à sua medida.

Abraços e boas pedaladas.

Pedro Silva

29Mai2017

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