Uma doença chamada desporto.

“Mais vale pouco do que nada”, já dizia a minha avó!

E até há bem pouco tempo eu concordava com ela, mas eis que chego a um ponto em que sou obrigado a reflectir sobre isso e começar a discordar.

Como treinador de desporto, começo a achar que se calhar há pessoas que mais valia estarem sentadas no sofá sem fazer nadinha da vida, do que aquilo que andas a fazer, por pouco que seja.

Lombalgias são talvez o sintoma mais referido por praticantes inexperientes.

Procurar saúde através do desporto e transformar isso numa doença é um paradoxo no mínimo interessante.

Estou sentado numa esplanada a tomar o meu café, quando a conversa da mesa do lado me começa a entrar no ouvido. Nessa mesa, dois homens e uma mulher, pelo aspecto deles, diria que se tratam de executivos, talvez na casa dos quarenta anos, nem mais nem menos.

Falam sobre crossfit, trails, ginásios, não consigo perceber bem afinal o quê que praticam efectivamente, a mulher puxa de cigarro quando chega o café e a conversa continua, como se carecas discutissem a qualidade de pentes.

Falavam em desporto como uma “obrigação”, não vi centelha de entusiasmo na conversa, falavam de praticar desporto e usavam expressões do género “porque é preciso”, “tem de se fazer alguma coisa”, entre muitas outras.

Sabia que as mulheres estão mais propensas a sofrer rupturas dos ligamentos cruzados do que os homens?

Assim que o fumo do cigarro da atleta feminina chegou até mim, levantei-me e abandonei tão agradável conversa de amigos, que mais parecia uma verdadeira preparação olímpica.

Há uns dias passou-me pelas mãos, um estudo realizado pela Fundação Portuguesa de Cardiologia e que resumidamente caracterizava os portugueses como gordos, preguiçosos e estúpidos. (Isto obviamente é a minha interpretação da conclusão a que chegaram, mas por outras palavras).

E aqueles 3 tristes, sentados aquela mesa, pareciam o exemplo perfeito do retrato do estudo.

Como é que alguém pode praticar desporto para aumentar o bem-estar, se o simples facto de ter de praticar desporto já é por si criar mal-estar? Onde está a saúde nisso?

A técnica no levantamento de qualquer tipo de pesos é fundamental, o ombro é a articulação mais complexa do corpo humano e extremamente fácil de luxar devido à sua instabilidade.

Não sei o que é mais aborrecido se ver uma gorda sentada no café a pedir dois pastéis e exigir que o café venha com adoçante, ou os reféns do desporto e bem estar a calçar as sapatilhas, ou ir para o ginásio por pura obrigação social.

Cada caso é um caso, mas há uma tendência e é ela que de certa forma me incomoda.

Ser saudável está na moda e a merda das modas irrita-me solenemente!

E não se esqueçam de adicionar ainda um outro fenómeno, é que atrás de uma prática desportiva, vem imediatamente uma “dieta”, que também elas(as dietas) é ver cada qual mais tosca, a desfilar na passerelle.

São aos pontapés e de conceitos cada vez mais elaborados, isso da dieta da cenoura já não cola. Dos vegans, aos vegetarianos que entretanto se tornaram démodé, aos mais eclécticos fãs da neo-dieta a “paleo”. E com isto o pessoal anda por ai cheio de paleo a tentar convencer os amigos, o pior é que os amigos vão indo no paleo destes com medo de também eles ficarem démodé e caem no ridículo por não querer cair no ridículo, porque o equilíbrio deles é o desequilíbrio completo, mas ai que alguém lhes diga isso, porque muitos são orientados por verdadeiros Gurus da auto-ajuda! Criando-se assim verdadeiras seitas de fundamentalista não muito diferentes dos radicais Islâmicos.

O desporto e as dietas deveriam ser vistos com algo fundamental ao bem estar e não como uma moda de impulso, uma dieta que vai durar “X” tempo, uma temporada no ginásio só para cumprir “aquele” objectivo.

Os períodos nos ginásio duram pouco, porque as pessoas são orientadas a fazer o que não gostas, acontece o mesmo com as dietas de emagrecimento rápido.

Antes de se iniciar uma dieta, um plano de exercícios, deveria ser feita uma analise global, tendo em conta variadíssimos aspectos como: antecedentes de saúde, do próprio e familiar, factores de risco, objectivos a longo prazo e metas a alcançar, entre outros. Consultar profissionais de diversas áreas.

Poderão utilizar os argumentos que quiserem, que fica caro, mas mais caro ficará tratar qualquer sequela deixada pelo mau exercício físico, ou pela má gestão alimentar, isto para não mencionar no factor psicológico, que esse, não é possível avaliar o dano.

Antes de saltar para dentro das sapatilhas e desatar a “trailar” por esses montes fora, antes de desatar a agarrar em pesos  numa “caixa” qualquer e antes de desatar a morder-se todo em cima de uma bicicleta, faça-se o favor de fazer duas perguntas a si próprio:

“É isto que realmente EU quero?” e “Estou preparado para o que ai vem?”

A verdade é que a práctica desportiva pode realmente mudar a sua vida, seja qual for a modalidade que escolheu, que melhor se adequa a si e ao seu estilo de vida, mas faça essa escolha em consciência e dê inicio de uma forma progressiva, coerente com os seus objetivos e consciente de que os seus tempos de atleta já lá vão, o objetivo agora é divertir-se, não divertir os outros.  Palhaços é nos circo, porque não é o desporto que faz mal, é a forma como ele é practicado.

Se é saúde que procura, não faça dessa busca uma doença maior.

Boas pedaladas, boas corridas, ou seja lá o que anda a fazer, DIVIRTA-SE 😉

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