As cabras tomaram conta do asfalto.

Estou numa loja de bicicletas e entre conversas ouço uma que me chama mais a atenção do que as outras, três amigos opinam sobre ciclismo de estrada e btt, nem eles imaginam como estão errados nas suas observações. Mas a verdade não tem a ver com o que está “em cima da mesa” e sim, com o lado da mesa do qual observamos os que está em cima da mesma.

Num momento em que os granfondos encheram as nossas estradas,  sejam eles bem vindos, as molduras humanas conseguidas nesses eventos deixa uma ideia errada do que é o ciclismo e de como ele chegou aqui.

Ora, todas as opiniões são válidas, mas de quem entrou no ciclismo há pouco menos de 5 anos, tem uma visão da modalidade, que deixa muitas mudanças de fora e uma delas, é precisamente como é que o ciclismo chegou ao cenário de hoje, onde milhares e milhares de praticantes enchem trilhos e estradas por esse pais fora, mas os responsáveis por isto, são as cabras.

Há uns tempos fiz uma sondagem que reuniu perto de 6 mil respostas. Uma das questões colocadas, foi de há quanto tempo praticavam ciclismo e uns incríveis 52% das respostas dadas, foi de que, acontecia há menos de 5 anos.

Há uns anos atrás dizia-me o João: “Monte é para as cabras, a elite anda na estrada”

A frase traduzia um pensamento, ou mais que isso, uma maneira de estar que havia há uns bons anos atrás e que felizmente desapareceu, não que tenha acabado, mas foi totalmente diluída no volume de praticantes que aumentou exponencialmente nos últimos dez anos.

O btt é um desporto relativamente recente, comparativamente ao clássico e centenário ciclismo de estrada, e quando os praticantes de btt começaram a sentir necessidade de melhor um pouco o rendimento, desceram da serra ao asfalto para treinar e entraram em rota de colisão com a auto proclamada “elite do ciclismo”. Nunca houve qualquer pretensão destes em tirar espaço, ou protagonismo a quem quer que fosse. Quando comecei a praticar btt em meados de 93, este era uma modalidade emergente ao qual se chamava ciclismo de montanha, a sigma “BTT” (Bicicleta Todo Terreno) ainda não estava enraizada e frequentemente a seguir ao dizer que se fazia BTT, ouvia-se um sonoro “Quê?”, até um professor de educação física chegou a dizer-me que eu não praticava nenhuma modalidade, apenas “andava de bicicleta”, era este o panorama.

O dito ciclismo de montanha não era visto na verdade como uma modalidade, como uma forma de desporto, embora em 1996 viria a ser modalidade olímpica pela primeira vez nos Jogos Olímpicos de Atlanta, EUA. Ainda para mais num pais do velho continente, tão resistente a tudo que é inovação, a tudo que é mudança e por isso era tratado com indiferença, ou pior, com desprezo. O lado mais visível desse “desprezo”, se assim lhe podemos chamar, era quando um betetista chegava perto de um grupo de ciclistas mais experientes com os pedais de btt na bicicleta de estrada, era o suficiente para ser repudiado com comentários desagradáveis e de desprezo.

Por questões práticas e muitas vezes até mesmo económicas, era, tal como ainda o é, prática corrente o praticante usar os mesmos sapatos para ambas as modalidades, claro que com a experiencia, a maioria transita para sapatos e pedais específicos de estrada, mas esta era a primeira coisa que identificava o praticante de btt que se apresentava nos pelotões tradicionais de estrada.

Ajuste de umas travessas de ciclismo de estrada #bikefit

Está certo que ainda hoje prefiro rolar sozinho ao vento, do que no meio de pelotões de praticantes sem qualquer hábito, porque representam um perigo para os demais, mas há formas e formas de lidar com as situações e cheguei a presenciar alguma encrespação entre praticantes de vertentes diferentes, como se não fosse tudo um só ciclismo.

Creio que haverá sempre os que se acham mais ciclistas do que outros. Mas se há algo que aprendi com os anos, é que os que realmente sabem são humildes e partilham o conhecimento.

Até porque nunca cheguei bem a compreender esta encrespação que vinha dos ciclistas tradicionais de estrada, talvez porque assim que as gentes do btt começaram a entrar nos pelotões de estrada o ritmo começou a aumentar e o mesmo não aconteceu, nem ainda hoje acontece, porque no btt, “ter só pernas não basta” a técnica precisa de muito tempo para se adquirir.

E essas encrespações diluíram-se até à extinção, isto porque entretanto o “pessoal” do btt desceu do monte e invadiu as estradas, o que começou por ser um complemento de treino para o monte, acabou por se tornar num vício e houve quem viesse mesmo a trocar o monte, pelo asfalto de forma definitiva e hoje as estradas enchem-se de ciclistas de “fininhas” que entraram no ciclismo pelas rodas grossas com pneus de tacos.

Digam o que disserem, o que vi e aquela que é a minha opinião é que foi o btt que veio salvar o ciclismo tradicional, foi o btt que veio trazer milhares de novos praticantes que acabaram por consequência, por experimentar o ciclismo tradicional de estrada e dar corpo ao que hoje vemos nos ditos Granfondos que são talvez a maior expressão da quantidade de praticantes de ciclismo que hoje temos.

Se hoje o pelotão de estrada é grosso e composto, foi de cabras graciosas que desceram o monte.

E ainda hoje, como já se repetiu umas centenas de vezes, dizia eu a um betetista céptico:

“Experimenta a estrada, acredita que o problema vai ser gostares e uma modalidade, não substitui a outra”!

Eu sou sem dúvida uma cabra, mas uma cabra orgulhosa do meu btt. Eu gosto é de pó, pedras e lama e grandes paisagens, do silencio do monte que só uma cabra aprecia, mas que só uma cabra tem o privilegio de admirar, porque pneu fino não chega lá, mas diga-se de passagem que, esta cabra também gosta de dar uns toques no asfalto.

A sorte é que cabemos todos, quer na estrada quer nos trilhos, há alcatrão e oxigénio para todos.

Boas pedaladas.

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2 responses to “As cabras tomaram conta do asfalto.

  1. Concordo com tudo o que foi dito.
    Comecei no BTT há cerca de 5 anos e se no início a fininha para mim era algo que não me chamava, chegou um dia que experimentei e decidi comprar uma.
    Não troco a minha Bicicleta de Montanha por nada, mas no meu caso se quiser companhia para pedalar mais facilmente encontro no asfalto do que no mato.

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