DESISTIR…

2016, Paredes de Coura, Maratona a Contar para o campeonato Regional do Minho, não estou lá para ganhar nada, apenas desfrutar do percurso, mas a dureza do terreno só é comparável à beleza das paisagens, nem mesmo de olhos cheio de paisagens deslumbrantes são capazes de atenuar as dores e a falta de força que vai nas pernas, paro para uma pausa, preciso de encher-me de coragem para continuar.

Pego no telemóvel e ligo ao Rafael (o meu filho).

-“Olá filhote, lembras do que me dizias que sentias durante as provas no outro dia? Pois, olha o pai está precisamente num desses momentos!”

Há uns tempos, não me recordo se ia, ou vinha de uma prova, quando o Rafael me pergunta: “Oh pai, nunca te aconteceu, estares a meio de uma prova e pensares para ti porquê que não ficaste na cama?”.

Limitei-me a sorrir e ele lá continuou com aos desabafos dele.

(…) mesmo antes de começar a correr, sei que vou passar por isto, mas continuo sempre a ir e não sei porquê que o faço(…) – e prolongou-se noutras analises que ele me foi fazendo.

A verdade é que sei precisamente o que ele quer dizer, parece que o sentimento não varia muito de ciclista para ciclista. Sabemos à partida que vamos passar mal, mas continuamos a levantar ás tantas da manha, faça chuva, ou sol e lá vamos nós para as nossas próprias penitencias.

Domingo passado lá voltou a acontecer, mas desta vez mais forte do que o normal, a vontade de desistir, de chorar, o desespero como já há muito não me recordava.

Maratona de Paços de Ferreira, desta vez a contar para o Calendário do Campeonato Regional do Porto. O frio lá estava a chuva, segundo a previsão da meteorologia não devia tardar muito, mas dada a partida, ao fim de uns quilómetros a pedalar lá se aqueceu e os trilhos foram passando, técnicos como eu gosto e onde me sinto em “casa”.

Perto da Citânia, ainda dava para apreciar a paisagem e sorrir.

Os primeiros quilómetros ainda deram para sorrir e aproveitar a paisagem, mas depois viéramos problemas e a “fatura” de um ritmo acima das possibilidades, bem como outros com que não contava.

A água nos trilhos juntamente com o frio, trouxe a dormência nos pés, mas com isto pode-se bem, o pior era o que estava para vir.

Contas mal feitas e eis que me vejo sem comida suficiente para terminar a prova, vou a contar com um abastecimento que só apresentava laranjas e marmelada, nenhum dos dois seria possível de transportar, e abastecer-me ali em excesso, os açucares combinados prometiam uma catástrofe (é que o excesso é tão mau coma o falta), por isso fui muito moderado a contar que houvesse mais qualquer coisa pela frente e continuo. A boa disposição durou pouco, a dormência nos pés deu lugar a uma dor imensa, a fome e as mão geladas faziam-me pensar porque não voltar para trás até à separação da meia maratona e simplesmente desistir.

“Mas porque raio não fiquei em casa?” – Eu já sabia que as condições meteorológicas não eram as melhores, não tenho pedalado nada (aquilo a que alguns chamam de “treino”) e mesmo assim fui, estava à espera de quê, mas porque raio é que me continuo a meter nelas e pensava eu no Rafael.

Desistir, porque não?!

A pedalava era lenta e muito penosa, não era falta de força que me atormentava, era a dor aguda nos pés constante e provocada pelo frio. A ideia de desistir não me largava, não preciso de provar nada a ninguém e já não fazia algum sentido estar a passar por aquele tormento.

Todas as semanas dou treinos na escola de ciclismo, todas as semanas procuro ensinar algo aos miúdos, sou o primeiro a correr, a fazer os exercícios, a demonstrar como se passa os obstáculos, o primeiro a dizer bom dia, boa tarde, a agradecer aos peões, ao automobilistas por quem passamos, sempre que possível faço o que acho que deve ser feito, para dar o exemplo e ainda a semana passada lhes dizia: “NÃO DESISTAM DAQUILO A QUE SE COMPROMETERAM FAZER, NUNCA!”

Se não puderem correr, caminhem, se não puderem caminhar, gatinhem e se não puderem gatinhar, rastejem, mas desistir, mas desistir é que não.

Se eu desistir agora, que exemplo é que lhes vou dar? Este pensamento tomou conta dos outros e lá fui, não sei se “gatinhei”, ou se me “arrastei” até à meta e quatro horas e cinquenta e nove minutos depois de ter iniciado, lá a voltei a passar. A um minuto de completar cinco horas para apenas sessenta e três quilómetros, terminei, fui o último atleta (atleta não, praticante com licença desportiva) a atravessar a meta, mas terminei.

É incrível como todo o sofrimento ganha significado depois de cruzar uma meta pelo nosso próprio esforço, acho que é esta a magia do ciclismo, embora muitos que hoje pratiquem se deixem toldar pelas virtualidade de alguns jogos e se deixem converter em simples numero, a verdadeira essência do ciclismo não se traduz nestes, aqui os números não tem significados, aqui conta o sentimento, as emoções, a luta que travamos connosco próprios, talvez mais que uma luta, muitas vezes uma verdadeira guerra de emoções, algumas fazem jus à expressão: “sangue, suor e lágrimas”.

Uma imagem pode valer mais que mil palavras, mas mil imagens não descrevem um sentimento.

A verdade é que sem vergonha alguma vos confesso, a palavra “desistir” ecoa-me muitas vezes na cabeça, mas a verdade é que conto pelos dedos de uma mão, desde 1993 ano em que comecei a praticar btt, as vezes que o cheguei a fazer. Mas em quase todas as provas longas, ou até mesmo as mais curtas mas intensas, ela está lá bem presente.

Admiro tanto os que sofrem para chegar em primeiro, como aqueles que o fazem para terminar, cada um vem para casa com a sua vitória, no ciclismo, nem os que pela mais fortes razões se vem forçados a desistir, serão algum dia derrotados.

No entanto, acho que não nos devemos vincular ao “a todo o custo”, ou ao “a qualquer custo”, porque um dia destes o custo, pode ser demasiado elevado.

Não sei se é defeito, ou virtude, mas ciclista que é ciclista, não sabe desistir e tenho a certeza que aqueles 300 soldados espartanos tinham na veia, sangue de ciclista.

Venha a próxima…

Boas pedaladas e bons empenos.

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