MATURAÇÃO INFANTIL E PRESSÃO PARENTAL NO DESPORTO II

 “O atleta perfeito é órfão”

 

São tantos os exemplo negativos que já encontrei, que me recuso a exemplificar algum em concreto. Mas o assunto é sério e por isso, apesar da expressão não ser minha, prefiro a brutalidade da mesma para titulo, mesmo sujeitando-me a que a ignorância de alguns progenitores os faça sentir-se ofendidos com este.

O pai quer o melhor para o filho, o treinador quer o melhor para o atleta.

O desporto deveria ser uma actividade saudável, quer física, quer psicológica e até mesmo social, mas frequentemente os pais geram um conflito que coloca em causa os interesses do próprio filho e em que absolutamente ninguém sai a ganhar.

Há muitos casos em que a presença dos pais é extremamente prejudicial, não é o trabalho do treinador que ele está a boicotar, é a formação do próprio filho, num período da vida dos jovens em que o desporto pode ter uma grande influência na construção da personalidade.

Quando os pais são prejudiciais para os filhos.

Não é pelo facto de um pai proporcionar ao filho a pratica desportiva que este assume o papel de bom educador, algumas casos a pratica desportiva é uma forma de violência contra a própria criança, ou jovem e isto não acontece apenas porque esta se vê  forçada a praticar uma qualquer modalidade desportiva, em nome da saúde e bem estar, o “burnout” pode ser desencadeado pelo pai, a partir do momento em que este fica obcecado pelos resultados desportivos que tardam em chegar, ou não satisfazem o pai.

Na tradução livre termo “burn out” significa queimar. É uma condição que se assemelha a depressão, originada muitas vezes por grandes niveis de stress, é uma desistência por cansaço, saturação, desânimo, ausência de energia, entre outras.

Dificilmente algum jovem lhe dará uma resposta típica de adulto, que faz desporto “por causa da saúde”, ou do “bem estar”. Uma criança está sempre bem se estiver com os seus pares, por isso as crianças querem praticar desporto por questões sociais complexas, mas sem terem essa percepção, para se integrarem, para imitarem ídolos, para serem admirados como eles, mas nunca para que lhes seja exigidos resultados, para dar razões a alguém que lhes berre, que lhes dê mais ordens, que os coloque sobre stress.

A vontade de vencer, característica de grandes atletas, é algo que qualquer treinador procura, porque este traço de personalidade, aliado a um bom perfil genético, é o “barro” de que são feitos os grande atleta, mas encontrar os dois juntos, é como encontrar uma agulha num palheiro.

O problema é que todo o pai acha que tem ali um campeão, que só precisa é de ser pressionado, levado aos limites e tudo se consegue e que se não dá, a culpa é do treinador que não soube espremer bem.

Pior que um pai a pensar assim, é quando um treinador se deixa influenciar pela vontade de um pai neste sentido.

Esta forma de pensar, acredito que seja fruto do marketing desportivo e de frases motivadoras como “just do it”, “no pain, no gain”, “testa os teus limites”, ou outras semelhantes. As estas frases foram feitas para vender material de desporto, não para construir atletas e muito menos para formar crianças e jovens.

Mas se acha que não faz parte deste leque de pais prejudiciais, faça uma pequena analise e identifique-se, já deu por si a fazer alguma destas coisas?

  • Leva cronómetro, ou controla o tempo de piscinas, sprints, voltas, etc…
  • Grita comandos de ordem como: chuta, passa, nada, corre, pedala, mais pesado, mais leve, etc…
  • Critica a performance desportiva do seu filho,
  • Critica a acção do arbitro
  • Critica o treinador,
  • Critica os adversários, ou colegas,
  • Costuma dar dicas, ou tácticas de com ele deve abordar o jogo, a corrida, ou mesmo os treinos,
  • Acha que por o seu filho ter material melhor, será consideravelmente melhor,
  • Quando termina uma prova a sua primeira palavra para ele é uma critica (pessoal, ou geral)

E então, em quanto disse para si que sim? Achava que não era um pai prejudicial, ou até considerava mesmo que procedia correctamente. É tempo de parar!

Os pais são uma peça fundamental no desenvolvimento desportivo do jovem, quer o desporto de competição esteja para ele apenas como uma etapa na vida, ou se adivinhe como um futuro promissor, encare ambas as situações da mesma maneira.

Não queira tomar o lugar de ninguém na mesma condição que ninguém o quer substituir a si como pai. Foque-se na educação, seja um exemplo em atitude, não projecte no seu filho frustrações, ou desejos pessoais, pergunte-lhe o que ele quer para ele e não o que você quer para ele.

Uma coisa é o que nós queremos, outra, é o que eles querem e se ambas não se encontrarem, a certo ponto tornar-se-ão tão distantes quanto os desejos de um e de outro.

Ninguém se torna disciplinado porque se tornou atleta, tornou-se atleta porque era disciplinado.

Um bom treinador, quer o melhor para o atleta. Isso significa ter um objectivo e todo o objectivo tem uma relação intrínseca com um plano. O treinador é um formador e toda a formação exige disciplina.

Meu caro pai, o treino desportivo requer a construção de um plano, ao qual correspondem diversas  estratégias de acordo com a evolução, que quando bem desenvolvidas serão aplicadas em etapas de desenvolvimento. Não se saltam etapas, da mesma forma que não se salta a instrução primária, o ciclo preparatório, ou o ensino secundário, para chegar ao ensino superior há fases e cada uma proporciona novas competências, da mesma fora que requer capacidades especificas.

A este compete a arte de avaliar competência, ensinar as técnicas, as regras, para que o jovem tenha sucesso em determinada modalidade, respeitar os diferentes tempos de aquisição de competências que cada jovem tem, mas a determinada altura o treinador terá também que ser capaz de eliminar, os que não tem as capacidades para, os que não preenchem os requisitos mínimos, os que por muito que treinem, nunca serão atletas, pelo menos naquela modalidade.

A um pai, compete manter uma estreita relação com o técnico compreender as suas opções, mesmo que as questione pontualmente, o que deve fazer.

Não é por o seu filho jogar basquete, que terá dois metros de altura, não é por nadar muito que será o Michael Phelps e não é por pedalar muito que será o Froome, o Peter Sagan, ou o Nino Shcurter.

O desporto é inclusivo, todo o podem e devem praticar, mas a competição é exclusiva, atletas de alto rendimento são seres com características muito particulares e seleccionados criteriosamente, mas todos eles sem excepção chegaram aquele ponto, por serem disciplinados, focados, objectivos e pelo caminho, acredite, divertiram-se muito porque o fizeram por vontade própria.

Eles vivem o sonho, mas não chegaram lá através de um pesadelo, lembre-se que o processo cognitivo tem melhores resultados quando a aprendizagem é feita através de estímulos agradáveis.

A brincar aprende-se mais do que com qualquer berro, como pai, certifique-se que é bestial e não uma besta.

Boas pedaladas

 

Pedro Silva – 22março2017

 

Leia o artigo anterior “Maturação infantil e pressão parental no desporto.”

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