Capacete obrigatório, sim, ou não?

É absolutamente inegável de que o capacete é uma peça chave na protecção da integridade física do ciclista e como tal este deve ser visto como obrigatório para quem recorre à bicicleta como forma de desporto, lazer, ou veiculo de transporte.

capacete luvas oculos helmet glasses gloves mtb

No entanto transpor da obrigação moral, para a obrigação legal poderá não ser de todo do interesse da comunidade ciclística.

A discussão do tema voltou a estar acesa. Na ordem do dia discute-se uma possível posição do governo em tornar o uso do capacete obrigatório para utilizadores de velocípedes.

A ideia surge depois de uma noticia um tanto ao quanto sensacionalista e como tal bem conseguida por parte do editor em causa, albergando em si o oportunismo de uma federação de promover o seu passeio anual e diga-se que quase pareceu concertado e pôs todos a falar do que para mim é um “não assunto”.

Ora vejamos se há razão para tanto:

No cerne da questão está o Documento PENSE2020 da autoria da ANSR, onde, entre outras tantas resoluções e sugestões, se pode ler o seguinte:

 “A15.67.Estudar a obrigatoriedade de utilização do capacete pelos utilizadores de velocípedes”

pense-2020-paragrafo-obrigacao-uso-capacete-velocipedes

O PENSE 2020

Pode ser resumido com sendo uma proposta de criação de uma estratégia para a segurança rodoviária ir ao encontro de metas de redução de sinistros.

O documento esteve disponível para consulta até ao dia 8 de Janeiro de 2017 e pode ser consultado nos seguintes links: Despacho; PENSE2020.

O capacete

Hoje há vários tipos de capacete e para todos os gostos e carteiras. Os modelos mais conhecidos, serão os de poliestireno, revestidos com uma capa mais firme, normalmente de pástico de forma a ser suficiente firme, resistente e garantir estética, com baixo peso. No entanto há outro modelos, tendo já sido inclusive homologados capacetes de formato alveolar totalmente em cartão. Quanto a preços, há capacetes desde poucos euros, até largas centenas, é uma questão de gosto e carteiras, a função é igual e o nível de protecção muito próximo, porque para serem comercializados tem de passar por um processo de homologação e como tal, sujeitos a testes.

capacete-de-papel

A lei.

Não existe qualquer parágrafo que obrigue o utilizador de velocípedes e utilizar capacete e a existir, Portugal seria o PRIMEIRO pais do MUNDO a ter tal lei.

O ciclista de competição

Para quem anda no meio da competição, sabe que o capacete está nos regulamentos como OBRIGATÓRIO (UCI 1.3.031), pelo que ninguém pode alinhar numa partida sem que tenha este acessório bem colocado e apertado. Aqui a questão nem se coloca, a UCI não brinca com a segurança de quem pratica ciclismo de competição, seja ao nível profissional, ou nos amadores.

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Mário Cipollini tornou-se ainda mais polémico, ao responder desta forma às criticas nas redes sociais por ser visto frequentemente a pedalar sem capacete.

O capacete e o ciclista de fim de semana

Os últimos 5 anos viram o ciclismo crescer exponencialmente e muito embora não haja registos lançados que o confirmem, basta perguntar a qualquer cidadão atento que facilmente terá a resposta que hoje os ciclistas abundam, como se de uma feliz contagio tivesse acontecido.

Amigo influenciou amigo e são aos milhares…com capacete!

No meio deste contágio de ciclistas desportivos, rara é a ocasião em que cruzamos com alguém sem capacete, de facto, quer no ciclismo de estrada, quer no de btt (a modalidade responsável por esta “explosão” de praticantes) é muito, mas muito raro depara-mo-nos com esta situação, talvez porque a mesma influencia que fez dar inicio às pedaladas, também fez usar capacete e não foi preciso lei alguma para que isto se tornasse um habito neste tipo de praticante.

A educação e a informação continua a ser a melhor ferramenta de prevenção, o PENSE2020 faz menção a várias intervenções na formação e informação, mas destas linhas ninguém falou nada.pense-2020-orientacoes

O capacete e a mobilidade urbana.

É aqui que se apresenta o grave problema. Ao longo dos anos, tem-me passado pelas mãos diversos estudos sobre mobilidade urbana e estes são muitas vezes surpreendentes. Conclusões como: redução nos custos dos sistemas nacionais de saúde pela promoção do uso da bicicleta, melhoria no comercio tradicional através da alteração de artérias, eliminando a circulação de automóveis e promovendo a utilização pedonal e de bicicleta, aumento do valor de propriedades em cidades, etc… Poderia mencionar muitas mais, mas estas são as chaves, que contrariam o senso comum, de que o acesso automóvel beneficia a economia, mentira!

O ciclismo desportivo e de lazer, jamais poderá ser comparado com o ciclismo de mobilidade urbana, no entanto todos são caracterizados como “ciclistas”, todos estes modelos intervêm na sociedade de uma forma muito positiva e construtiva, mas devem ser vistos e tratados como segmentos e publico totalmente diferente.

Obrigar ao uso do capacete, seria castrar a mobilidade urbana e a promoção do uso da bicicleta em geral.

Se obrigar-mos alguém a usar capacete para se iniciar na bicicleta, as probabilidades são um enorme não à partida.

Senão imagine a seguinte situação:

Está na capital francesa, onde tem milhares de bicicletas públicas à disposição e que repente perdeu o seu transporte habitual que o levaria apenas a 2 quilómetros dali, olha para uma bicicleta publica duas vezes e pondera o recurso à mesma. Experimente e gostou da experiencia, a partir dai está aberta a possibilidade de se vir a tornar um utilizador frequente. Mas se no meio desse desenrasque inicial, ficasse inibido dessa utilização por não ter um capacete à mão, teria esperado pelo próximo autocarro, ou recorreria a um táxi e aquele experiencia jamais teria acontecido e como tal, jamais seria um potencial utilizador frequente da bicicleta.

A finalidade com que se usa a bicicleta, não elimina o risco que está sempre inerente à sua utilização. O praticante coloca-se em movimento a uma velocidade superior À que praticaria enquanto peão e com um centro de gravidade bastante mais elevado, o que aumenta a gravidade de ferimentos em caso de queda. E o capacete entra também aqui como um objecto fundamental na protecção da integridade física do utilizador da bicicleta, numa analise muito superficial, o maior risco será sempre a interacção do utilizador com o automobilista, pois é este que representa o maior risco na cidade, senão atente no gráfico fornecido pelo PENSE2020 e compare o numero de vitimas mortais de acordo com o modo de deslocação, sendo que os ciclistas, representam menos de 25% do que os peões. Deveremos obrigar os peões também a usar capacete, tendo um tão elevado número de vitimas mortais?

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Sou daqueles que vê a bicicleta e o capacete como um só objecto, indissociáveis!

Para mim, toda a gente deveria utilizar capacete assim eu salta para cima de uma bicicleta, mas tenho a convicção, de que esse acto deve acontecer por educação, sensibilização e consciencialização e JAMAIS por obrigação, devemos promover primeiro o gosto e depois fazer compreender. O problema não é o capacete, continua a ser a falta de informação, de educação, a visão quadrada que abrange todos, de automobilistas a ciclistas, estamos tão habituados a ler a palavra “radicais” e “fundamentalistas” que perdemos a noção do seu significado, perdemos a capacidade de dialogar e compreender.

opiniao-perspectivas

Não nos esqueçamos do conceito de liberdade, ninguém tem o direito, de se achar no direito de saber o que é melhor para o seu igual, em vez de tentarem obrigar alguém, trabalhem na educação dos vossos filhos, porque assim estarão a trabalhar verdadeiramente na mudança.

Boas pedaladas

“Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.”

José Saramago

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3 responses to “Capacete obrigatório, sim, ou não?

  1. Pingback: can’t miss [169] oprojetopedal.wordpress.com | na bicicleta·

  2. A verdade é que já não posso ouvir falar em capacetes e no possível uso obrigatório, mas não podia deixar de felicitar o excelente texto e o bom-senso que esteve na sua base. Muito bom!

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