O que faço com a minha 26?

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Passaram uns anos desde que escrevi “29er mania, o btt foi tomado de assalto”, um artigo onde manifestei a minha opinião sobre os diferentes tamanhos de roda existentes no mercado.

26 vs 29er

Entretanto por estes dias, recebi uma mensagem de um seguidor do blog, que me questionava sobre “o que fazer com a 26”, o que me fez voltar a reflectir sobre o assunto.

Ora, longe vão tempos em que este debate fazia correr muita tinta, enchia blogs e fóruns de com discussões, algumas delas até bem acesas, mas o tempo passou e acalmou, matou o assunto, já ninguém quer saber, ou quase ninguém, já não se comenta ou se coloca em causa a hegemonia das 29, elas não vieram só para ficar, vieram para substituir e disso já não resta dúvida.

Mas o que se passou afinal?

Admito! Fui um dos muito cépticos na entrada das 29 e sobretudo no seu domínio, agarrado às 26 ainda lutei uns bons anos até me render ao óbvio, não que as 29ers sejam “melhores”, nesse tema há um grande “depende”, mas aconteceu que as marcas fizeram destas a única opção. Se o mercado estava à mercê de um abalo, então os fabricantes de bicicletas criaram um verdadeiro terramoto de 10.0 na escala de Richter.

De um ano para o outro, as bicicletas de roda 26 simplesmente desapareceram dos catálogos. Bom, desaparecer não desapareceram, mas foram despidas e atiradas para a cave, que é como quem diz, retiraram qualquer equipamento de topo e foram mandadas para a “zona das bicicletas de passeio junto ao mar”.

Relegadas para as últimas páginas dos catálogos, longe dos modelos de topo mais orientados para a competição e uma vez que são os modelos usados em competição que ditam as regras do mercado, desde logo os compradores seguiram esta tendência.

A influência vem dos profissionais, que só o são porque servem fins comerciais, sem dinheiro não há desporto e o desporto faz dinheiro. Não são as bicicletas que fazem os profissionais muito melhores, são os profissionais que fazem as bicicletas parecerem melhores, eles correm com o que lhes pagam para correr, tão simples quanto isto!

(Em contra corrente durante estes anos e desde o aparecimento das 29er o Penta-campeão de XCO e actual medalha de ouro Olímpico Nino Schurter, andou até este anos (2016) com uma bicicleta de medida de roda 27,5, que era o meio termo entre as 26 e as 29, mas terminou com a corrida da Taça do Mundo de La Bresse em França, onde Nino surpreendeu todos quando apareceu com um protótipo da marca que o patrocina, desta vez na configuração de roda 29. E não mais o largou. O último diferente, é agora igual a todos!)

Mas como é que as 29er’s mudaram o desporto?

A verdade é que nem tudo é mau nisto das 29er e talvez por isso o Sr. Gary Fisher, desde cedo investiu no desenvolvimento das mesmas.

29er mais atrito, inércia e força centrifuga, bom, ou mau?

Um diâmetro superior de roda determina maior contacto com uma superfície, neste caso o solo está sujeita a maior atrito e uma necessidade superior de energia para a fazer mover, uma maior distância do pneu ao eixo, determina também maior força centrifuga, se pode custar mais a colocar em movimento o objecto, depois deste em movimento pode ser mais fácil manter o movimento, no entanto a mudança de direcção também é afetada pelo aumento da força centrifuga, a bicicleta perde agilidade de movimento, mas ganha estabilidade.

Bikers mais experientes poderão sentir desagrado nesta perda de domínio sobre a bicicleta, em alguns aspectos é a ela que determina o caminho. No entanto, para alguém que se inicia agora e não tem ainda um domínio técnico razoável, poderá ver com bons olhos esta estabilidade acrescida e até desfrutar mais da modalidade uma vez que não precisa de tanta perícia técnica para transpor os obstáculos, ou para “segurar” a bicicleta, até o guiador de 720mm típico das 29er ajuda e muito.

Uma bicicleta que quer seguir mais em frente, que depois de posta em movimento tem uma velocidade mais constante e não é dada a movimento súbitos, o que é visto como aspecto negativo para alguns, pode ser um acréscimo de valor para a modalidade, uma vez que permite que mais praticantes adiram à modalidade uma vez que se torna menos exigente do ponto de vista técnico.

As 29er e a estatura do praticante.

Acabara de conhecer uma atleta para a treinar, fora imediatamente informado que no ano seguinte iria correr com uma 29, decisão ainda no lusco-fusco da recém chegada das 29er ao mercado e irreversível, eu só olhava para aqueles 150 centímetros de pessoa e pensava no erro. Ainda tentei argumentar, mas em vão.

Como treinador e como bikefitter, estava ali montado o desafio.

Foi a primeira vez que coloquei um avanço de 35 graus negativos numa 29 e fiquei com a sensação de que estava a cometer uma heresia, que coisa horrorosa, no entanto valores mais altos se elevavam.

Avanço com -17º

Avanço com -35º

Existe uma relação entre altura do eixo do guiador e altura do selim e a performance desenvolvida pelo praticante. Alguma vez viram um ciclista pedalar sentado como se fosse para o trabalho e a ganhar uma prova?

O aumento da roda obriga a um aumento do tamanho das pernas da suspenção, logo, caixas de direcção mais elevadas e proporcionalmente guiadores mais subidos, por isso é que só com a entrada das 29 é que os avanços com inclinações negativas de 17, 25, 35 e até 40 graus proliferaram, foi preciso adaptar bicicletas a pessoas que tem estatura para as usar.

Nem só nos avanços se encontrou dificuldade, já tive necessidade de colocar espigões de selim com recuos invertidos, isto porque em alguns casos é possível ajustar uma bicicleta ao atleta de forma a que ele tenho o máximo de eficiência nela, mas o “máximo de eficiência” nessa bicicleta, não significa o máximo de eficiência que o atleta poderia obter com uma bicicleta proporcional ao seu tamanho.

Bikefitter sofre! 🙂

29er’s e os circuitos de Competição

Não posso dizer se as 29er vieram alterar as competições, ou se esta alteração viria de qualquer das formas, mas certo é que os obstáculos tornaram-se tecnicamente muito mais exigentes.

As pistas de XCO começaram a ter obstáculos cada vez mais técnicos, resultado direto ou não da utilização das 29er será sempre discutível, mas os drops tornara-se maiores, os “gaps” aumentaram e os rockGardens também ficaram mais agressivos com pedras maiores e mais afastadas, a verdade é que este tipo de obstáculos passaram a ser praticamente intransponíveis com uma 26, ou então a exigir muito maior capacidade física. Hoje uma pista de XCO é mais técnica que as de downhill de há 10 anos atrás.

Já nas maratonas não se notou qualquer alteração, fruto de uma utilização de terrenos mais naturais sem necessidade de construção de obstáculos artificiais.

Mas no meio disto tudo há uma questão que persiste

O tamanho importa?

E eu respondo NÃO! Importa sim o que fazes com o tamanho que tens.

O que realmente deve ser importante é adequares a bicicleta ao que queres fazer, adequares a ti e ao que te permitirá desempenhar de forma mais eficiente e fluida os teus objectivos. Por isso a questão mais importante não é o tamanho, mas o prazer que tiramos da bicicleta e então a minha resposta à questão:

“O que faço com a minha 26?”

Usa-a, o que te impede de o fazer? Porque afinal de contas, continuam a ter a mesma capacidade de te fazer sorrir, como qualquer outra bicicleta.

Lembra-te que não é a bicicleta que faz o ciclista, é o ciclista que faz a bicicleta.

Boas pedaladas.

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