Os pais, a educação e o futuro do desporto.

Somos a última geração de crianças que brincou na rua e simultaneamente a primeira a impedir que mais o possam fazer.

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“Juntos e sozinhos aprenderão mais do que acompanhados de um adulto”

Fomos nós, os que nasceram nas décadas de 70, 80 e 90 as últimas crianças que tiveram o privilégio de uma infância quase sem rede, tal como no circo, assumimos uma infância por conta e risco, quase entregues a nos próprios sem o olho gordo do adulto e mesmo que assim não fosse, crescemos sem o controlo parental que hoje assistimos e que na minha opinião, quase sempre excessivo.

Saudosistas inabaláveis desses tempos, gabamos essa infância, essa liberdade, as memórias e as histórias que a mesma nos proporcionou, enchemo-nos de orgulho dessa infância e pergunta-mos com a mesma frequência com que recordamos, porque acabaram esses tempos, essas infâncias, sem reflectirmos que fomos nós os responsáveis pelo fim desses tempos.

Com o fim das crianças de rua e dos joelhos esmurrados, a sociedade transforma-se, ou vai sendo transformada e com estas mudanças de hábitos os desportos como parte fundamental do movimento social, mudam também.

A maneira como fomos educados e como iremos educar, reflecte-se no desporto e na sociedade, e nesta certeza, fica a duvida de como será o desporto e as modalidades desportivas num futuro próximo?

Sem citar estudos e limitando-me a uma analise empírica, acessível ao escrutínio de qualquer um, a maneira como observo os comportamentos infantis e juvenis, reflexo das educações recebidas, atrevo-me a afirmar que hoje há atenção exacerbada dada aos jovens desde tenra idade, deixando-os sem margens para exploração, para o erro, para a queda e para o joelho arranhado, sem margens para a construção de uma personalidade capaz de lidar com as adversidades que a vida adulta os presenteará.

Não é à toa que diz o sendo comum que os campeões surgem por gerações, dever-se-a isso à educação de determinada geração, ou ao investimento feito na mesma, ou quiçá, a ambos!

E o desporto, pode ser a resposta para esta colossal falha, mas o desporto escolhido por pais e jovens, pode também ele ser reflexo de uma educação mais exigente, mais deficiente, ou de uma vontade intrínseca de vingar.

Historias…

O Rafael tinha 13 anos e já praticava ciclismo (btt), mas foi por volta desta altura que começou a pedir para ir ter com os amigos de bicicleta. De minha casa ao local de encontro distava uns dez quilómetros e a circulação fazia-se por uma estrada Nacional com o movimento típico de uma, com direito a todos os cruzamentos pelo meio. Não é fácil lidar com esta situação, como pai e como ciclista sei os riscos que corre, mas não poderei estar sempre presente para o defender, por isso aposto na educação como melhor defesa possível, mais difícil foi convencer a mãe de que ele já estava pronto para isto, mas ao final de um par de meses e alguns ensaios bem conseguidos, a confiança instalou-se e hoje, o Rafael com 15 anos faz o treino de um ciclista normal.

A Mariana com os seus 12/13 anos caiu durante uns treinos de uma prova de btt, era um salto técnico e até bastante difícil, contava pelos dedos das mãos os rapazes da mesma idade que tentaram fazer aquele obstáculo, mas ela tentou, correu mal, mas tentou! Da queda resultou um joelho com uma ferida bastante feia até, prontamente assistida pela equipa medica no local, a Mariana desvalorizava a lesão, a socorrista insistia que a ia levar à ambulância e a menina olhava para os dois adultos que estavam com ela, eu um deles e o outro também não era um dos pais. Dizíamos que corrida era já a seguir e aquilo estava “muito bom”, a socorrista abanava a cabeça com ar reprovatório, a Mariana diz que está bem e tem um segundo lugar no campeonato para garantir, não correr não era opção na cabeça daquela pequena atleta, a socorrista pouco mais do que leva-la à ambulância conseguiu fazer, mas pelo ar compreendia-se que ela não compreendia a atitude da pequena.

Nesse mesmo dia, andava por lá a saltaricar a Carolina. Fazia-se acompanhar de uma muleta e lá a ia usando como apoio, ninguém diria que há umas semanas atrás aquela menina tinha fracturado tíbia e perónio, de tal forma que obrigara a intervenção cirúrgica, mais um imprevisto do ciclismo, mas o que mais se notava era a ânsia de voltar a pedalar.

Não é fácil para um pai, ou uma mãe, lidar com estas certezas de perigo e à medida que incentivamos uma criança a desenvolver no ciclismo, estamos directamente a incentivar que corra mais riscos.

Nem todos os desportos acontecem num pavilhão, num recinto fechado, num espaço totalmente controlado, ou livre de grande imprevistos e muito menos todos os desportos podem ser observados de uma bancada, debaixo do olhar atento de um encarregado de educação, que procura escrutinar ao pormenor os gestos e acções de forma a satisfazer o desejo, ou necessidade de controlo absoluto sobre o individuo (criança) e o seu meio envolvente e o ciclismo faz parte desta lista.

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O ciclismo é também um dos desportos emocionalmente mais difíceis para o(s) encarregado(s) de educação.

Mas o que o torna tão exigente, pode afinal de contas não ditar a sua extinção, mas pelo contrário, a sua proliferação enquanto modalidade desportiva. Os pais que hoje voltam à bicicleta para satisfazer o saudosismo deixado por aquela icónica infância, acabam por compreender que este é um veiculo, que pode levar os seus filhos muito mais longe do que apenas até à padaria mais próxima, pode não os levar aos jogos olímpicos, mas pode leva-los a uma forma de superar a vida e os obstáculos desta, de uma forma muito mais fácil e natural do que qualquer outro meio de transporte.

Para a criança de hoje, tudo é fácil, tudo é simples, tudo é acessível, tudo é já, agora, imediato! E o desporto e a vida, não se compadecem com estas exigências.

O ciclismo é um desporto exigente, aliás, como qualquer outro desporto que seja levado a sério, com rigor e com ambição, mas não querendo dizer que é “o mais difícil de todos”, é seguramente um dos mais difíceis.

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Embora se assista a um fraccionamento cada vez maior da sociedade, que se divide entre desportistas e sedentários, não quero acreditar que o ciclismo veja a sua existência desportiva comprometida, perdendo para desportos de pavilhão com seguranças asseguradas.

São hoje os pais que outrora eram as crianças que brincavam na rua, que se começam a cansar de sentar num pavilhão para assistir ao treino semanal, começam a levar as suas crianças lá para fora para conhecerem como foi crescer como eles e juntos, redescobrem a infância, de uns e de outros.

Parece que estamos finalmente a querer devolver à rua, o que afinal sempre pertenceu à rua.

O ciclismo tira os pais da zona de conforto, mas afinal de contas, a vida começa quando damos um passo para fora dela.

Boas pedaladas 😉

Texto: Pedro Silva – projetopedal.com

Fotos: Guilherme Costa

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