As bicicletas e o Porto.

Um dia da semana como tantos outros, Junho já vai a meio e o cheiro a férias embora no ar, ainda não passa apenas disso, um aroma sem sabor definido par a o comum do cidadão.

Eu, um destes dias, por força maior, recorri à minha viatura com motor de combustão interna para a ir ao centro do Porto, coisa rara, mas que teve de ser, afinal como diz a minha avó “uma vez não são vezes”.

Estaciono no quinto dos infernos, pago uma fortuna pelo parque e ainda assim esperam-me umas boas centenas de metros até ao destino. São estes os prazeres do automobilismo e dos automobilistas urbanos, prazeres que há muito prescindi.

Na caminhada do estacionamento ao destino, conto as bicicletas amarradas aos postes, como se o poste lhes pertencesse, alguns já com marca do hábito, quase como o meu sofá com uma risca escura do meu cão se roça lá a cada vez que passa.

bicicleta mobilidade urbana porto invicta

Paro algumas vezes e fico a olhar para estes encostos, gosto de bicicletas e ponto, tenham qualquer forma, ou qualquer feitio, sinto-me mais delas, do que algumas delas possam ser minhas. Tiro umas fotos, às bicicletas, ao Porto, este meu Porto, sou tripeiro com orgulho, nascido e criado embora de momento viva fora dele.

Nasci na maternidade de Júlio Dinis em pleno centro da cidade e cresci num dos muitos bairros que a cidade alberga. Foi nesse bairro onde aprendi a andar de bicicleta e foi por causa do extinto Centro Ciclista de Aldoar que me apaixonei por elas.

A utilização da bicicleta na cidade vai como sempre andou, sozinha, autónoma, distante de pseudo-politicas promotoras. Parece que as bicicletas não querem nada com os políticos, ou serão estes que não querem nada com elas?! Pelo menos aqui pelo Norte, o Norte que eu conheço.

Já lá vão uns anos, em que eu, munido de um espírito empreendedor e convencido que faria a diferença, tomei a iniciativa de andar por ai a reunir em Câmaras Municipais do grande Porto, julgava eu que o que lhes estava a fazer falta eram pessoas que quisessem contribuir para que as coisas saíssem bem feitas. Pensava eu!…

E lá fui eu, feito parvo!

Dei com engenheiros que fazem planeamentos urbanísticos e desenham ciclovias, mas que não andam de bicicleta, nem com frequência, nem de vez em quando e lá vão eles desenhando e depois admiram-se que ninguém use a “obra”. “Ai no Porto ninguém quer utilizar a bicicleta diariamente para se deslocar para o trabalho, basta contar as pessoas que utilizam as ciclovias diariamente” – talvez alguém tenha dito.

mobilidade proibido bicicletas

Talvez me tenha apetecido responder: “Vamos redesenhar o papel higiénico, mas desta vez com folhas de lixa, grão grosso de preferência, na teoria é melhor, elimina mais rapidamente a porcaria, as pessoas vão ficar radiantes”. E lá fica o papel higiénico na prateleira, concluem os criadores que ninguém limpa o traseiro, porque o produto deles é genial. São mal intendidos, só pode!!

Desapontado com o panorama político, virei-me para a web. Fóruns, redes sociais, precisava de encontrar pessoas com vontade e dispostas a despender tempo para lutar pelas bicicletas e reuni-las.

Outro murro no estômago!

Encontrei várias facções, demasiado radicais para lutar por uma forma justa para todos, é um cada um por si disfarçados do “um por todos, se todos forem por mim”. Se uns querem as bicicletas fora da estrada, outros querem os automóveis fora da mesma e como a minha avó costuma dizer “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”.

Nestes casos, houve ainda outra coisa de que não gostei, os rótulos, a separação, a arrogância. Os ciclistas desportivos na boca destes radicais são os “lycrados”, com se de uma raça diferente se tratasse, como se estes não estivessem incluídos na luta pela utilização segura da estrada, com se não interessasse inclui-los, uni-los a esta luta. Há por ai um punhado de indivíduos, a que também eu os rotulei de “ipster’s”, que agarraram nesta “luta” para se auto promover, uma forma de afirmação social, onde procurava mais as luzes dos holofotes do que propriamente a promoção da utilização da bicicleta, enfim…tristes!

Abandonei os barcos, sai a nado e deixei cada um na sua luta, afinal de contas, o que encontrei foi um “cada um por si!” e eu estava para lutar por todos e não em guerrinhas privadas.

A vida continuou e pelo meio algumas que aconteciam em cima das bicicletas tiveram o seu fim à mão de automobilistas. Eventos próximos e demasiado marcantes para que pudessem passar ao lado, como foi o atropelamento mortal dos atletas Iñaki Lajarreta, Burry Standler e por cá a “agressão” ao ciclista Profissional Rui Sousa, fez a comunicação social dar mais enfâse à necessidade de alterações e assim nasceu um “novo” código da estrada, “mais amigo” dos ciclistas dizem eles.

Uma coisa tosca, feita em cima do joelho por burocratas. Era pegar nesta gente, tira-los dos seus híbridos ecológicos de onde defendem o uso da bicicleta e pô-los a pedalar umas semanas. Assim saiu um código da estrada com “inovações” que na verdade não servem a ninguém, não trouxeram novidade às estradas a não ser uma enorme confusão e maior conflito. Os atropelamentos, as mortes de ciclistas não terminaram com este “inovador” código da estrada, a comunicação social é que deixou de lhes dar importância.

E no meio disto o Porto lá foi inovando no seu urbanismo, desenvolvendo ciclovias que não servem mais do que “para inglês ver”, uma dislexia a que já nos habituou. Ela (cidade) é, mobiliário urbano bom para danificar o material, podiam ter perguntado a alguém, alguém que pedalasse verdadeiramente e que certamente diria com simplicidade que, arestas e bicicletas não convivem em harmonia?! Uma recém desenhada Avenida da Boavista, ícone da cidade, com uma faixa para bicicletas que também ela não serve a ninguém, é uma lei municipal que integrou os motociclos nas faixas do “BUS”, mas ignorou as bicicletas. E os Portuenses continuam, é hábito destas gentes resiliêntes, já mesmo quando uma ordem real ordenou que a cidade entregasse toda a carne, em nome da conquista de Ceuta, este povo pegou no que lhes foi deixado e fez da dificuldade um prato típico. E desta mesma forma, alheio a toda a parvoíce lá vai pegando na bicicleta e usa-a, ignorando os declives, as ciclovias, os parqueamentos absurdos e faz aquilo que sabe fazer melhor, desenrasca-se e pedala.

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A faixa reservada a bicicletas que ocupa a primeira metade da Av. da Boavista no Porto, esta faixa tem inicio na Praça Mouzinho de Albuquerque (Rotunda da Boavista).

Algo que há muito conclui é que o ciclismo até hoje cresceu sozinho, não deve nada a ninguém, quando muito alguém lhe deverá alguma coisa. Se no compor desportivo são os círculos de amizade que atraem cada vez mais pessoas para as bicicletas, na mobilidade urbana é a necessidade e a capacidade de desenrasque, na falta de um bom parqueamento, um poste também serve. Na falta de ciclovias, sinalização, ou informação, lá vamos sorrindo para os automobilistas e contamos com a educação e civismo que semeamos e lá se faz um convívio mais ou menos salutar.

O ciclismo está bem sozinho, já que ninguém faz nada por ele, deixem-no como está, lá diz a minha avó “antes só, que mal acompanhado” e a minha avó sabe bem o que diz!

Boas pedaladas

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