O gordo do escritório.

Um dia convidei o gordo lá do escritório para se juntar à malta no domingo e dar umas pedaladas com a gente. Afinal de contas o gordo até era um tipo porreiro, contava umas piadas, sempre pronto a ajudar e eu pensei, porque não?

o gordo do escritorioO gordo disse logo que não, não tinha bicicleta como a nossa e há muito que não fazia qualquer actividade física, como eu insisti e disse que era tudo malta da boa, o gordo lá aceitou.

Era um domingo como outro qualquer, a malta ia chegando ao ponto de encontro como era habitual, uns vinham diretos de bicicleta, outros de carro com as ditas no tejadilho. A hora de arranque aproximava-se e nada do gordo, pensei logo que na segunda feira me ia dar uma desculpa qualquer e pronto, não era coisa para ele, compreensível.

Um par de minutos antes da hora de abalarmos para o domingueiro, eis que chega o gordo, sei que morava algures perto do ponto de encontro, mas nunca pensei que viesse de bicicleta.

Olhei para ele e ele meio desajeitado aproximou-se de mim, comecei logo por o apresentar à malta que prontamente o cumprimentaram. Olhei para ele de alto a baixo, vestido de lycra acabadinha de comprar, só faltava mesmo ver a etiqueta, calções pretos sem alças que ele volta e meia dava o jeito de puxar para cima, um Jersey que mal se percebia por estar tapado com um casaco de fato de treino. O capacete mal apertado e todo puxado atrás deixando a testa toda à mostra, daqueles que ofereciam naqueles eventos de massas qualquer coisa “tour”, a combinar com a bicicleta. O gordo lá se entrosou no grupo e arrancamos.

Eu lá ia conversando com o pessoal do costume, já nos conhecíamos todos muito bem, habituados  a pedalar todos os domingos e o gordo lá se ia arrastando, volta e meia lá me deixava descair no pelotão e vinha até cá atrás onde rolava ele e outro amigo habitual que fazia questão de nunca o deixar só, era lema do grupo nunca deixar ninguém para trás e este não era excepção, apesar de todos saber-mos à partida que aquele passeio não ia ser como os outros, o gordo não estava habituado aquelas andanças e as paragens iam ser constantes. Mas estávamos habituados a bem receber, um dia já todos fôramos como o gordo.

Rolamos uns dez quilómetros em estrada e entramos nuns trilhos de terra, uns campos tipo agrícolas, nada de hardcore já a contar com as dificuldades do gordo. Ao todo deveríamos ir com uns vinte quilómetros, um ritmo muito baixo e mesmo assim as pernas do gordo não aguentaram. Ele suava e arfava, debruçava-se sobre a bicicleta e punha-se de cocaras, estava pálido, não sei dizer se do esforço, se da vergonha de perceber que apesar dos nossos esforços para que ele nos acompanhasse, nós frescos como alfaces e ele já sem força para se manter de pé.o gordo

Alguém deu a ideia dele voltar para casa de metro, afinal morava perto de uma estação e nós estávamos relativamente perto de outra. Ele, visivelmente embaraçado, desfazia-se em desculpas e lá entrou no metro.

Nunca mais o gordo pedala, pensei eu!

Na segunda feira ele falou comigo como se nada fosse e assim aconteceu nas semanas seguinte, nada de bicicletas na conversa do escritório, com receio que se sentisse humilhado, não toquei no assunto.

Passavam uns 3 meses depois daquele domingo, preparados para arrancar para mais um domingueiro e eis que perplexo vejo o gordo a aparecer. Capacete diferente e apropriado, os calções tinham alças e o casaco de fato de treino dera lugar a um Jersey decente, a própria bicicleta já não era a mesma, o “mono” de ferro da outra vez dera lugar a uma modesta btt de entrada de gama, mas já em alumínio. Bom parece que tinha feito o trabalho de casa.

Lá meio envergonhado explicou que adorou a maneira como apesar do fracasso dele, o tínhamos tratado, andou aqueles domingos todos a treinar sozinho e percebera entretanto que precisara de corrigir alguns detalhes, lá estava ele pronto para testar o btt entre amigos e ver se o seu ritmo já estava pronto para nós.

Para dizer a verdade, aquele domingueiro voltou a ser a um ritmo muito lento, mas o gordo não foi para casa de metro, saiu e chegou connosco. Era ver a felicidade dele no final da volta.

Na segunda feira que se seguiu, o gordo mal me viu no escritório veio logo comentar detalhes da volta, pedir opiniões e falar de outros materiais.

Passaram-se meia dúzia de anos desde aquele primeiro domingo em que o gordo foi para casa de metro, entretanto quem deixou de pedalar com tanta frequência fui eu, por diversas razões. O gordo, bom, o gordo já não é gordo e é hoje um ciclista em forma, convicto e viciado nisto, hoje é ele quem espera por outros, experimentou o ciclismo de estrada, lidera pelotões e ninguém diria que um dia aquele ciclista confiante, foi um gordo desajeitado que não sabia o que era sapato de encaixe.

Se um dia não tivéssemos esperado pelo gordo com toda a paciência e até carinho, tínhamos perdidos muitos bons momentos, tinha-se perdido um ciclista, tinha-se perdido tanto.

No fundo, foi este espírito que trouxe muitos “gordos” para o ciclismo.

Qualquer semelhança entre esta estória e a realidade, não é pura coincidência.

Quantas estórias de “gordos” há afinal de contas ai por contar?

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