Um Velódromo em pleno centro do Porto

velodromo-atual

Imagem e situação do velódromo rainha Dª Amélia, no Porto.

A notícia já é conhecida de uma parte intelectual da cidade do Porto, dos seus historiadores , dos homens que nos transmitem e investigam tradições, culturas, usos e costumes, reconstruindo um passado longínquo, pleno de vida, muitas vezes escondido e esquecido.

O ciclismo foi, nos finais do século dezanove¸ uma modalidade das élites, e compreende-se, não haviam meios motorizados de deslocação, e a bicicleta permitia aos seus utilizadores uma certa ascensão social.

Vários velódromos foram construídos por todo o país, alguns completamente desaparecidos, aos quais se perderam rastos, como o velódromo da Quinta de Salgueiro, do velódromo da Serra do Pilar, sabe-se que existiram mas não existem vestígios que nos permitam ver, ou pelo menos “ sentir” que ali, naquele local existiu algo que nos ligue ao ciclismo.

Estamos, como é óbvio, a falar da cidade do Porto, a mui nobre e leal cidade, de muitas lutas e tradições, e de um velódromo escondido, vergonhosamente, diria ocultado e esquecido, e mais grave, destruído e vilipendiado.

Os museus terão mais valor quando são “vivos”, isto é, conservam a integridade dos usos e costumes de determinada época e , nada mais visível seria, se o velódromo rainha dª Amélia tivesse sido conservado no seu lugar, respeitado o seu passado e não fosse destruído para que, no seu lugar fosse reconstruído o tal museu “morto”, com salas de chã, espaços de aluguer, destruindo-se o que de importante mais representava para a cidade do Porto.

Escondeu-se , destruindo um velódromo que, em três voltas se percorria um km, como mandam as regras internacionais. Isto é, um velódromo de 333.3 metros, em plena cidade do Porto, uma cidade onde as estruturas desportivas não abundam e onde os monumentos são vilipendiados.

Um espaço que fez falta á cidade, numa zona carente de instalações desportivas que permitam a prática desportiva de lazer.

É verdade,o velódromo rainha D.Amélia é um monumento, destruído grosseiramente, por quem não teve respeito pela história e passado da cidade e da história do desporto.

O Velódromo D. Amélia, foi o maior recinto desportivo do Porto na primeira década do século passado, como palco da modalidade que os tripeiros mais acarinhavam quando se começaram a interessar por desporto. Parte das suas instalações mantiveram-se intactas até hoje, o local onde está instalado é quase um segredo, e a grande maioria dos habitantes da cidade desconhece a sua existência num local tão nobre como as traseiras do museu Soares dos Reis e perto do Palácio de Cristal e do hospital de Santo António.

O Velódromo do Porto surgiu um 1894, furto da doação por parte do rei D. Carlos, no ano anterior, de um terreno ao Real Velo-Club do Porto para a prática do ciclismo. Uma prenda integrada nas comemorações do V centenário do infante D. Henrique. Não era o primeiro espaço na cidade ou arredores que recebia provas de amadores ou profissionais deste desporto. O primeiro estava instalado na Quinta de Salgueiros e pertencia ao Clube de Caçadores do Porto. Posteriormente, na serra do Pilar, construiu-se o primeiro Velódromo D. Amélia – assim baptizado em homenagem à mulher do rei -, designação que seria transferida para a pista do Porto, passando a estrutura de Gaia a ter o nome de Príncipe Real.
O Velódromo foi instalado no jardim do palácio dos Carrancas, propriedade da família real desde 1861 e local onde esta costumava pernoitar quando se deslocava à cidade. O palácio dos Carrancas, recorde-se, é o actual Museu Nacional de Soares dos Reis. O estádio ficou situado nas suas traseiras, no interior de um quarteirão, o que o resguarda de qualquer olhar mais indiscreto e o torna quase desconhecido.

As portas do Velódromo do Porto encerraram em 1910 com a implantação da República e a ida do rei D. Manuel II para o exílio. O espaço foi doado à Misericórdia, mas em 1939 o Estado Novo decidiu “nacionalizar” o palácio e a sua envolvente para aí ser instalado o museu Soares dos Reis.

O espaço do Velódromo do Porto é hoje denominado Jardim da Cerca e integra as instalações do Museu Soares do Reis. Aí encontram-se em exposição alguns dos brasões das antigas casas senhoriais do Porto. O terreno foi objecto da última requalificação no contexto da “Porto’2001, Capital Europeia de Cultura”, numa criação do falecido arquitecto portuense Fernando Távora, que fez questão de preservar integralmente alguns dos elementos da centenária instalação desportiva. Assim, sem grande esforço, ao nível do solo são perfeitamente visíveis as duas curvas da pista, com os respectivos relevos. Uma recordação do primeiro espaço desportivo do Porto, que permite imaginar as loucas corridas que aí se disputaram e os 25 mil adeptos que a elas assistiram.

No jornal «O velocipedista», em 1895 escrevia-se:

«Real Velo Clube: Esta agremiação, tenciona inaugurar o seu velódromo, na quinta do Paço real d/esta cidade, que lhe foi concedida para esse fim por S. M. el-Rei, por ocasião das festas do centenário do Infante D. Henrique. O distinto engenheiro snr. Esteves Tomás, que é o segundo secretário do Club, já está levantando a respectiva planta da Quinta para esse efeito.»

Inaugurado em 1895 ali se realizaram muitas corridas e demonstrações desportivas, incluindo a primeira corrida de motorizada realizada em Portugal.

Hoje em dia está fechado, destruído, perdendo-se um monumento dos poucos que todos nós poderíamos utilizar, como o mais antigo recinto desportivo da cidade do Porto.

 

Fonte: jornalciclismo.com

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